Publicado por joelrogerio em Dezembro 21, 2006
Não os pinheiros, que não se vêem pelo vale do rio Doce, mas os flamboyants que se prodigalizam em florações, já na entrada de novembro, e se infestam de vermelho para a gente ver, são minhas árvores de natal.
Lá em casa da minha infância havia um. Coalhava o chão de rubro à época da floração. Era belo, só que por verter parte dos galhos para além do muro, incomodava a vizinha que não se embevecia com a árvore. Dizia que sujava o seu quintal. Veio o dia que disseram que as raízes estavam rachando o muro. Cortaram o flamboyant. Mas não deu nem tempo para ficar triste. Naquele ano o meu pai comprou uma sonata em suaves prestações na Loja Ondontótica e no amigo oculto meu irmão mais velho ganhou um “long play”
dos Beatles. Então os Beatles tocaram lá em casa “twist and shoud” noite e dia do natal que fez um domingo de sol quente na cara também…
Por isso em dezembro não faz frio neste vale. Se chover ou não chover, a gente sempre estará feliz na noite do natal.
♠Blog bacana:
Dias com árvores♪The Beatles
: Yesterday¤Vídeo:
The Beatles – I Should Have Known Better
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Publicado por joelrogerio em Dezembro 19, 2006

“De tudo o que é possível conceber no mundo, e mesmo em geral fora do mundo, não há nada que possa ser considerado bom sem restrições, a não ser, apenas, uma vontade boa.” Kant
Padecia da sede de justiça. No tribunal e mesmo antes de estar lá, guardava um ódio de fazer mal a mim mesmo. Pensava com uma mágoa introspectiva, que este era um país de instituições falidas, de gentes vendidas, da força da “grana”. Tive de enfrentar ameaças, o tribunal, para fazer valer a lei. Inconcebível nas circunstâncias em que a coisa é obrigação de quem tem o poder de polícia.
Ao término de tudo havia vencido. (Não sei bem se alguém vence em tribunais).
Nos corredores das faustosas instalações do prédio da lei, pago com pesados impostos, vi Márgara, que armada de sua beleza e perfume, é uma serventuária da justiça. Três beijinhos e disse-me que eu estava bem e também feliz natal. Mais alguns passos e Felipe, camisa verde-claro de seda e colarinhos impecáveis. Perguntou-me se eu houvera matado alguém. Encabulado disse-lhe, a meio sorriso, que ainda não (Deus que me livre). Estendeu-me os braços para um abraço fraterno e confidenciou-me com ótimos olhos que sentira grande alegria de me ver. Disse ainda que não entendia o meu sumiço. Eu disse pôxa, mas agora estou aqui… Ninguém imaginaria que alguém com um jeito terno daqueles pudesse ter sido partícipe de um racha que houvera vitimado o próprio amigo. Mas era passado, e eu o tenho em alta conta na minha afeição.
Às vezes acho que tudo que é pessoal e íntimo é que vale a pena. Só a justiça que nunca deverá deixar de ser impessoal e para todos.
♪ Música: A Vida do Viajante GONZAGUINHA/ Gonzagão
♠ Blog que merece prêmio: Apocalipse Motorizado.
¤Vídeo legal: Lagartixas.
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Publicado por joelrogerio em Dezembro 14, 2006
“A vida não se justifica pela utilidade, mas pelo prazer e pela alegria” (Rubem Alves)
Meu irmão espalhava-se no sofá. Minha cunhada sentada no outro sofá se deleitava vendo, no DVD, o clipe do Rod Stewart. Domingo passado eles discutiram de se cansar. Agora parecia que a paz entre eles não era breve. Então eu não sei porque diabos apontei o dedo pro meu irmão e disse: “Da próxima vez que você der um “ninja” na Nete e for curtir um domingão sozinho, lá no Rui, leva o Chocolate com você (Chocolate é o cão da casa). Ele riu um riso mais ou menos. A Nete falou que se ele levasse o cachorro, era para colocar uma sunga no bicho, porque era muito feio ficar tomando banho peladão na piscina. “Você ouviu, né Dino?” – Ela completou.
Foi a primeira vez que me engasguei com bombom. Mas eles riram muito mais!
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Publicado por joelrogerio em Dezembro 7, 2006

“
Eu quero amar, amar perdidamente !Amar só por amar: Aqui … além…Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente …Amar ! Amar! E não amar ninguém !“
(
Florbela Espanca)
Ela colocou a mão direita na minha nuca, a mão esquerda sobre a borda do teto do “carango”. Pediu para ficarmos. Afetuosamente dizia que o tempo estava para chuva. “Quando chove um temporal como o que está por vir, as estradas destas bandas viram um barreiro, traz muito perigo para dirigir carro. Tomem mais uns tragos e se acomodem”. Diante da nossa insistência de despedida, nos convidou para voltarmos mais vezes e que no próximo domingo a programação de Alto Liberdade seria das boas. Fitou-me com os olhos tão azuis e forçou o meu pescoço para acontecer um beijo. Constrangimento puro. Duas mãos no volante e não cedi. Então tchau, tchau, …, vão com Deus! Passei a primeira e arranquei o carro e a graça da mulher.
Certamente se sentiu a última.Cem metros à frente, gargalhadas uníssonas no carro. “Mas ela só queria um beijo, desses de mordidinha que você diz saber dar”. Dizia Adejander, saboreando o som de cada palavra. O Dotô Digo também não se calou, dizendo que nunca havia visto alguém de pescoço mais rijo. Mas só o pescoço! Rá, rá, rá…! Válber para não ficar de fora, nada original, cantarolou com uma voz pastosa, típicamente bêbado “ não interessa se ela é coroa,
panela velha é que faz comida boa”. Ah, Válber, pudera eu dar uma descarga!
E, assim descemos aos risos pela estrada poeirenta, parelha ao Rio Liberdade. Disse a eles que, já que achavam esse episódio tão interessante que colocassem na
Difusora para o Alcenir noticiar. Já que foi tanta notícia o refugo do Baloubet du Rouet, o meu refugo também daria IBOPE !
Até que a chuva da Dora veio e o pó tornou-se barro. Alguém, não me lembro, disse profeticamente “tamos fudidos”. Foi assim que o Escort (bofemóvel, como diria o Guidoni, mas mofando em casa!) deu-se a patinar estrada afora até girar e por poucas polegadas não encontrar uma parambeira com plantação de bananas. Isso colocou sobriedade em todos. Que continue a sorte!
Domingo outro, recompostos, estávamos de novo em Liberdade.
Dora estava lá sentada, coladinha a um homem de cabelos de cachos uniformes, olhos claros, branquíssimo como bruma e longe de ser galã. Não parecia jovem, mas tinha um quê de jovialidade em gestual. Ele acariciava o rosto lívido e maduro de Dora como se gostassem muito. O “forró pé de serra” fervia na cabana. Os dois, a mim parecia, sentiam-se a sós no mundo. Nenhuma grana tiraria-os daquela mesa sombreada por uma calabura. Quando acabei o grande copo de cerveja, tomei ânimo e como se vestisse um casaco de general, fui ter com os dois. Não sei por que “cargas d’águas” fiz isso.
Ela cortês e riso conhecido. “Fidélis, este é o Lu, ele sabe fazer a cabeça da mulherada. Jaque vai arrumar o cabelo com ele, lá em
Colatina, para o casamento!”. Galega desgraçada. Não me chamo Lu, não faço a cabeça da mulherada, ainda mais nesta acepção. Não a beijei no domingo da chuva, não por questão de distantes nossos anos de nascimento, foi só porque fiquei avexado com a turma.
Não me chateou Dora. Para um hipócrita como eu, isso era pouco!
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Publicado por joelrogerio em Dezembro 3, 2006

Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
É um moleque da minha rua. É um diabo em forma de menino – um diabinho encarnado e sem rabo, diz a vizinha. Tem lá os seus sete pra oito anos. Peguei o neguinho no flagra, outro dia, desligando o medidor de energia da vizinha que o vê como o “coisa ruim”. Gritei para ele: “deixa de ser safado Ronaldinho”. Eu não sabia o real nome dele, mas é a cara escarrada do Ronaldinho Gaúcho, quando menino, então saiu Ronaldinho mesmo . Ele tremeu na base. “Não corre não seu ladino, se não conto pra sua mãe. A verdade é que não tinha a mínima idéia de quem fosse a mãe daquela criatura, se é que tivesse mãe. Então ele parou e pude falar-lhe.“Rapazinho, por que você não brinca umas brincadeiras que não chateiem os outros? Jogar futebol por exemplo, você até parece com craque!”. Ele pareceu satisfeito com que eu lhe disse, ou talvez por não ter-lhe dado uns tabefes. Falou-me com jeitinho de criança que já jogava bola, mas a bola havia furado e só praticava na escola. Lembrei-me de que guardava uma bola que ganhara num sorteio de uma loja de calçados. Presenteei o “Ronaldinho” com aquela bola que nunca havia sido chutada, com a promessa de que se tornaria um menino melhor. “Sem essas brincadeiras de mal gosto”.
O “Ronaldinho” jogava muito dizia a Tânia, que descobri ser sua professora no primário. “Se conservar o talento poderá ser um craque do futebol”. Egoisticamente conjecturei que lá por 2014 ou 2018, ele estaria lá na copa, dando um “show de bola” pela
seleção canarinho e diria nos microfones das redes de tevês de todo o mundo: “agradeço muito ao apôio que recebi de uma pessoa muito especial, o Joel, lá do Espírito Santo”.
É, quem sabe? Porém o Ronaldinho apareceu lá pelas redondezas da minha casa, então o chamei e ofereci-lhe um copo de leite com café, que ele adora. Perguntei-lhe sobre os seus desejos de futuro, assim como a gente fala com as crianças: “o que você vai ser quando crescer, hein Ronaldinho?” Ele respondeu-me “bombeiro”. Silenciei-me, e diante daquele silêncio, a criança que já tinha noção do mundo e das pessoas, achou que sua resposta fora para mim um sacrilégio… Ele não sabia que acabara de marcar um gol de placa no meu coração!
♪ Tocando em frente, com Almir Sater
♠ Blog de placa: Puro futebol. Nível de pureza controlado, adequado tecnicamente para a maioria das aplicações em laboratórios de análises futebolísticas.
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Publicado por joelrogerio em Novembro 29, 2006
Um homem só é nobre quando consegue sentir piedade por todas as criaturas”. – Buda (563? – 483? A.C.)
Noite fresca. 22 no máximo. Nem uma alma viva ou desencarnada por perto. Não tenho cansaço de corpo. Olho pro breu do céu. Nossa, quanto tempo não reparava esses pontinhos brilhantes no firmamento – cintilância das estrelas – não era vagalume. Vai bem um travesseiro no piso duro. Deitar na varanda. Na varanda dá pra deitar e ficar feito uma coruja – feito a coruja que pousava lá pelas altas horas na antena da sky, bem tranqüilona, circunspecta. Delibero esquadrinhar as estrelas, de barriga pra cima – Assim não há perigo, barriga pra cima, calmo, calmo. Ah garoto! As três Marias não precisam de apresentação, figuras fáceis deste céu antigo – estavam lá dando, como sempre, aquele mole. Eu sabia, pelo Seu Melquíades – meu vô muito doidão, que Deus bem o tenha – que as três Marias formam o cinturão da constelação de Órion, o caçador. Segundo a lenda – dizia o velho, Órion estava acompanhado de dois cães de caça, representadas pelas constelações do Cão Maior e do Cão Menor. Por mais que me esforce eu não consigo ver a configuração de estrelas do tal Caçador, tampouco a dos seus cães. Vi uma estrela de um fulgor maior, possivelmente Sírius, a estrela mais brilhante do céu, e facilmente identificável a sudeste das Três Marias.
Esse negócio de olhar o céu procurando caçadores, cães, as Marias, deu-me a doer a costela – estou um pouco magro. Recordo-me da coruja da antena Sky, a coitada que me encantava todas as noites, fora devorada pelo dócil gato daqui de casa. O peste do bicho tem lá o seu potinho de ração sempre cheio, mas só deixou as penas de lanugem felpuda pra eu ver.
Não. Parece que por esses dias não é negócio mergulhar nas estrelas do céu de meu Deus. Já bastam os muitos cães e caçadores daqui deste chão de meu Deus a me espreitarem. Mas salvem as Marias. Não nos incomodam – muito, muito pelo contrário. Hoje eu quero ser gato dos de sete vidas e não coruja. Ah, se eu fumasse pitaria um cigarro. Uma brahma não vai? Não, agora sou um gato, vou aliviar minhas tensões afiando as minhas garras no seu sofá. É bom você ficar sabendo, desde logo, que gatos sabem usar unhas e dentes muito bem – olha que avisei! Por isso me trate com afeição – ninguém quer uma cicatriz na cara. Mato cachorro a gritos. Não custa nada um carinho, custa?
♪ Você se lembra desta canção do Richard Sanderson? Reality
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Publicado por joelrogerio em Novembro 27, 2006
O sacerdote e o levita passaram ao largo da vítima do assalto ( da bíblia dos cristãos – Lc 10).
Lá de cima alguém notou ao longo da paisagem verdejante, desnastrada pelas intermitentes chuvas do novembro, um entalhe no relevo contrastando o verde com ocre. Perguntou sussurrando, aos que estavam a seu lado, se era aquilo o corte do morro para abrir a estrada do contorno à cidade. Ninguém falou senão o pai nosso. O silêncio pedia-se. Naquele instante a ausência de outras falas era uma necessidade, uma exigência para que o homem religioso cumprisse o seu ofício: palavras de consolo e pai nosso, para descer à campa, o corpo daquele homem que todos achávamos bom e que a sua morte fizera a mim e a outros chorar. A resposta à pergunta sobre a estrada teve que esperar.
Quando o rito acabara, por um esforço de fé ou talvez por uma natural defesa para esquecer que não havia um porto seguro para aportar, respondi ao caro rapaz, que era bela a estrada que atravessava aquele longínquo morro. A pista era um brinco, perfeito pavimento asfáltico, e era muito larga também, boa de andar no automóvel, bonito para ver. Mas outro veio e disse que apesar disso, era sinuosa e que seus declives e aclives breves, ajuntados à imprudência e negligência dos motoristas, ceifaria muitas vidas.
Então mesmo aquela nova via, que me parecia um itinerário confortável, passou a ficar bem só em fotografia. Mesmo dentro do cemitério e carregando o pejo da angústia, quis ser moleque e falei ao chefe que o trenzinho que carrega a molecada pelas vias da cidade, não poderia nem pensar em rodar por lá, então. Ele me disse que eu deveria ter cuidado (ele sabia que eu houvera denunciado o tráfego do
trenzinho ao ministério público). Eu achava que havia risco para a criançada. A turminha passeava solta, sem cintos, em horários de trânsito intenso. Isso ia frontalmente contra a educação de trânsito, que se deve dar aos pequenos. Deus nos livre e guarde, vai que um caminhão, ou qualquer veículo colidisse com eles, iria voar criança para longe! O chefe mais uma vez me admoestou: ” cuidado rapaz”. Pensei comigo: “imagine se ele soubesse que o dono do brinquedo motorizado, seguira-me de motocicleta por duas vezes, até o portão de entrada do trabalho, e para que eu pudesse vê-lo, ao adentrar o portão, ele do lado de fora, tirava o capacete para que eu o reconhecesse.
Voltando a falar com o chefe, buscando em mim uma a raspa de um humor requentado, disse-lhe que poderia ser eu o próximo da turma a vir para o descanso eterno daquele campo santo. Viria pela compulsoriedade de uma bala no peito. Ele, como um tutor, pediu pela terceira vez que eu tivesse cuidado. Falei: cuidado eu tenho, só que já me morreu o medo. E que se fosse para viver com medo neste mundo, preferia a campa. O chefe arregalou os olhos e não falou mais nada até sair do cemitério.
Está certo, sou “um bosta”, não nasci para ser herói – sou um tanto patético, não me acho bonito e nem sou bom. Já usei uns creminhos na cara, até já tentei ser um cara legal, mas às vezes nem sei o que falar, tenho uma mesquinha vergonha de falar “eu te amo” (fico sempre com pé atrás). Mas a praga da indiferença, com seu poder avassalador, companheira doentia do dominador e opressor, também dos que preferem as desigualdades, a violência, o ódio e a morte. A esta não sucumbirei. Os indiferentes, de uma forma ou de outra, ferem, rejeitam, excluem, matam. Está correta a conclusão: o contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença. O exercício saudável da cidadania é um milagroso remédio contra o mal da indiferença, envolvem-nos com o sofrimento do outro e com a alegria de todos.
Aquelas estradas longínquas, com seus bonitos pisos de asfalto, ladeadas de vistosos arbustos, poderão ser sim, caminhos confortáveis. Haverá jeito. Haverá jeito!
¤Vídeo, November Rain: A great performance of the Guns N’ Roses classic with Elton John and a symphony orchestra.
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Publicado por joelrogerio em Novembro 24, 2006
O Ormigrein ainda não dera o efeito. A latente enxaqueca que me atazanou toda tarde, fazia-me agora à noite, um miserável. Não quis fazer como os elefantes, que se isolam para encontrar a morte. Arrumei uma cadeira espalhafatosa, dessas de lona, para praia e pus-me no centro da sala cheia de família. Todos falavam. Todos somavam suas vitórias. Notei o velho inquieto, sedento de atenção. Era. Ele fazia piruetas com a dentadura dentro da boca. Era o “plimplim” para que se transformasse daquela forma surrada no cavaleiro forjado. Começou de mansinho, quando alguém falou cabrito. Não sei porque alguém falou cabrito. Não me interessava. Mas ao velho não. Ele tomou a palavra cabrito e desfiou a estória…
“Naquela época, nesta cidade que está aí, só havia um médico que clinicava. O povo todo consultava com o doutor Luiz Rodrigues. Vinha gente de todas clareiras de mata. O meu pai tinha um mal no estômago, tão ruim que não podia andar. O único cavalo que tínhamos fora vítima das pessonhas de uma
surucucu e de má sorte estávamos a pé. De Patrão-Mor até a sede, de perna, é pra dias. Pois calcei minhas botas de couro cru, ajeitei o velho nas costas e toquei pra cidade. Só dei uma pouca parada na casa do Germano. O Doutor Luiz Rodrigues nos atendeu bem. Disse que meu velho devia repouso e receitou que ele só deveria comer guisado de cabrito. “Cabrito, mas bem maciinho”. Trouxe o velho pra casa, desta vez não parei sequer pra gole d´água. Tempo daquele ninguém criava cabrito, precaução. Ninguém queria cevar onça. Cabrito, nem pra remédio. Olegário Damascena, que morava numa ilha do Rio Doce, lá na altura do Papagaio, tinha uns. Fui lá. E era longe. De pernas, era dias. Trouxe o bicho, “vivinho da silva”, berrando, isca de onça, no lombo. Tive de passar matas sem estradas que cobriam morros e vales, águas sem barco. Mas o bicho veio. Eu não tinha medo de nada, nem de assombração.”
Todos na sala sequer piscavam, imóveis, bons ouvidos. O velho satisfeito com a platéia, disse – “quanta coisa já fiz nesta vida que já estou velho”. E sentindo que tinha audiência para mais, emendou mais uma. “assombração naquela época tinha centos”. Antes que ele prosseguisse, o encarei de enxaqueca, falei: ora, o senhor não está velho não. Velhos não são dados a contar mentiras. Todos riram de rir, ele também e eu ri postiço. O velho perdeu a vez de falar e continuou a fazer malabarismos com a dentadura.
♪ Jota Quest: Ela me faz tão bem
♠ Blog dos melhores: MadTeaPart – Tem um agradável tom pessoal sem ser chato.
Θ Vídeo: Uno entre 10 argentinos
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Publicado por joelrogerio em Novembro 20, 2006
“nós gostamos de bobagens, mas temos uma queda pelo amor” – Chandler Bing
Veio o Luís, e diferente de quando transborda-se de alegria de ter 17 anos, me pergunta meio baixo astral: “Rapaz que negócio é esse de trabalhar sábado à tarde?” Respondo que é preciso às vezes em finais de ano. Temos que fechar o ano financeiro, há matérias oficiais a publicar, empenhos por fazer, caralho-a-quatro. A resposta dele é “caramba, mal, mal!”. E me pede “Ô mestre Joel, não vá trabalhar no natal, viu?” Fez-me lembrar de que estamos às portas do natal.
Luís vai-se em silêncio sem esperar mais de mim. Intimamente desejo-o um feliz natal.
Putz, daqui a poucos dias será o aniversário de um Deus que veio para ser bom como as criancinhas!
Blog Bacana:
Procurando um amigo
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Publicado por joelrogerio em Novembro 17, 2006
Jardim da Penha, hora da Ave Maria, Sexta – 16 de janeiro.
Chove por toda a extensão aonde meu faceiro olhar chega e minha alma em sonhos alcança, como chovera ontem, anteontem e noutros dias deste pluviátil janeiro como o dos tempos do bíblico dilúvio do velho Noé com sua arca. A tevê mostra as calamidades em Vila Velha: gente juntando os trapos e correndo da enchente em desespero. No Soteco, até calango boiando as câmeras registram.
Aqui no mundo do meu apartamento, sinto uma discreta satisfação pela malhação que pratiquei ao fim desta tarde na academia do Sesi. Já percebo o tônus muscular, já é saliente o meu muque . O tórax abre-se como o de um alazão campeão. Chego a sonhar caminhando na praia de Coqueiral, num encantado dia de muito sol, peitoral aberto ao vento. Aí inevitavelmente ocorre-me a “dita cuja” acelerando o meu já acelerado vadio coração. No apartamento do outro prédio as simpáticas “doidinhas” curtem músicas do Latino com todo o volume e excitação. Inevitavelmente ouço. Poderia até ser pior se fossem as músicas do “A-teens” que o Godão gosta mais do que tomar Bohemia no “Lamas” ou de estar com os Biase. Lembro-me de o ter tolerado numa ida e vinda de Colatina a Coqueiral, ouvindo aquela “bandinha Sueca de merda”, que é uma mistura de N’Sync com Britney Spears. Ouvi dizer que dia desses, ao pagar o pedágio para atravessar a terceira ponte, o Godão abriu os vidros do possante Goldão, abdicando do ar condicionado, para sentir o seu hirto cabelo livre ao vento, ouvindo no Cd player “Halfway around the World”, uma das porcarias de músicas dos Suequinhos. Os olhos dele, que sempre revelam um talento para crueldade, transformaram-se em expressão de candura de criança – pelo menos foi isso que o Zé Gleyson me contou. Não entendo como o Godão, que completou vinte e dois anos agora no dia dez, pode gostar de coisa mais adolescente.
Chove e parece que pelo país inteiro, pelo mundo inteiro. A música do latino ecoa do “Apê” das “doidinhas de pedra”: “… Você é a coisa mais bonita que já me apareceu. Quero ter você em minha vida pra sempre eu vou querer. Esse teu jeitinho me fascina, me faz enlouquecer…”.
Não quero mais pensar nela. Lembrar-me do dia em que a conheci na porta do cursinho pré-vestibular Up, dia do começo do nosso affair. Como a música diz, o jeitinho dela me fez enlouquecer. Onde está ela agora? Será que pensa em mim? Sou capaz de enfrentar uma nuvem de mosquitos graúdos em Coqueiral para tê-la comigo. Que nada! Tenho o controle da situação! Não estou enamorado! E se ela for estudar engenharia em Viçosa? Com tanto gavião por lá… E se ela conhecer o Suela? Bom, com o Suela não rola nada porque ele gosta de meninas meio pretas ou meio brancas ou bem escurinhas, e ademais ela não vai querer um cara descarado como o Suelinha, que mal mal presta para tomar conta da churrasqueira. Acho que vou ter que tomar umas caipirinhas no bar do Alemão. Não, vou acabar arrumando confusão com aquele “Lemão” que é um “Burro Velho”. Acho que vou ligar pro Delmo Manso Guidoni ou pro Kiko Casoti ou pro Godão Brabeza. Tanto faz, é tudo farinha do mesmo saco. Não vou ligar não. De repente ela liga e dá ocupado. Vou tirar o telefone do gancho, só para me provar que não me importo com ela. Passo a mão na cabeça. Sinto um calombo na moleira. Um galo!? Não lembro de ter me machucado, talvez tenha sido na academia. Será? Porque este calombo? Estou no controle. Que onda! “Thurururu thururu não resisti tô afim.”
♪ A Cor do Som – Menino Deus.
♠Tiro na Nuca – Show de blog
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