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Andando por sobre as águas.

Publicado por joelrogerio em Fevereiro 22, 2007

Quarta de cinzas. Tudo aqui é agora um vazio de carnaval. A única sombra, ou resquício de folia, se assim pode-se dizer, é o palanque, ainda cravado, próximo à praia, onde eram os shows, à espera do desmonte. Não mais estavam aqueles que, até escambar o dia, bebiam, dançavam, gargalhavam, namoravam-se e até brigavam (os loucos).

Minha cabeça não dói. Bebi, é claro que sim. Mas minha cabeça não dói. E essa estória de que bêbado não tem dono, não serve pra mim.

A praia, agora de poucos, é lustrada por um sol impenitente e bordada pela espuma que se derrete ao quebrar das ondas, que me faz lembrar do sonrisal que tomei ontem. Faz festa à vista. Prego uma mentira para o Eduard, assim ele se entretêm e cessa de regurgitar essa estória de destruição do litoral pela elevação das marés: Digo-lhe que o superpatrulheiro não viera conosco, pois estava num relacionamento ”dirty” com uma ricaça, que o levara numa Hilux quatro por quatro para Guarapari – Ela é tão rica que nem toma água, só scotch treze anos – Ele ri e nem questiona os treze anos. Sei que por boas frações de horas ele ruminará esta estória fajuta. A verdade é que o patrulheiro está na fronteira – sempre em alerta – servindo ao país. Fico assim em paz para lembrar da pândega e das pessoas que deixam as brincadeiras ainda mais divertidas na folia, fazendo assim um “upgrade” no nosso emocional.

Observo o horizonte do mar – retilíneo. Um barco de pescadores surge na cena, quase sumindo, cria um ângulo de felicidade. De súbito tenho vontade de caminhar até aquele longínquo barco. Caminhar por sobre as águas. Que doideira! Será o sonrisal? Sou apenas um comedor de feijão e às vezes de lentilha. O máximo que poderá ocorrer na tentativa será um corpo boiar, inchadão, dias depois. Milagre fazia a carteira do patrulheiro – o Meninão de Foz. Carteirada neles, Meninão!


Não é original essa minha idéia de andar por sobre as águas, mas se imagine andando sobre um mar encapelado, ou mesmo sobre o
Rio Doce, com suas marolinhas! Será o sonrisal?


É, mas um camarada – conta-se e reconta-se – andou sobre um revolto mar da Galiléia. Mas ele não era homem de verdade – era um Deus. Um certo Pedro quis fazer o mesmo, e até andou, mas quando lhe faltou a fé, começou a submergir feito pedra. Sorte dele que o Deus estendeu-lhe a mão, prontamente.


Certa feita fiquei “pê-da-vida” com esse Deus. Pedi-lhe um milagre. Queria que ele também me estendesse a mão, afinal era o único Deus que tinha vez lá em casa. Pedi por aquele menininho de oito anos – desesperadamente roguei para que ele não morresse. Era um menino tão bom e inocente, me dava o maior moral e dançava
“dancing queen” comigo na sala. Eu queria mesmo ser um cãozinho que pudesse comer as migalhas do banquete que caíssem da mesa daquele Deus e dos seus. Mas afundei. Não tive o milagre. Faltou-me fé? Não sei.


Tenho ponderado as coisas. Tenho visto corpos nas pistas e tragédias dantescas mais. O que dizer
do tsunâmi? Pobre Indonésia – paraíso das desgraças. O que dizer da seca que assola a África Sub-Sahariana, com seus rastros em forma de sede, fome, morte e aguda vergonha para um mundo que gasta bilhões de dólares fazendo guerra? O que dizer da exacerbada violência, pejada de assassinatos de inocentes, que campeia em nosso país?


Se esse Deus teve de morrer de maneira cruel e desumana, se esse Deus teve de comer o pão que o diabo amassou com o rabo (figurativamente falando), tenho que aprender a me resignar com as vicissitudes humanas. Talvez o Deus tenha morrido e ressuscitado para isso: nunca perdermos a esperança.


Esta estória me deixa melhor. Por isso que me alegro até quando o destino me faz encaixar a orelha no bocal sem lâmpada, da banca de caipfrutas, quando tentei me esconder da chuva precipitada sobre os foliões, levando um choque elétrico de ver estrelinhas ao redor.

Concluo que não preciso andar por sobre as águas (literalmente). Preciso correr nesta areia. É o que tenho agora, e ademais a pança está saliente… Só não consigo é dançar sozinho na sala

 

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Do caso da bala soft a outros engasgos.

Publicado por joelrogerio em Fevereiro 7, 2007

 “Aquele que conseguir, em meio à mais intensa cólera, sentir a própria respiração, será o que tem o mais alto poder de conquistas em suas mãos.” ®

Tipo avestruz

Certa vez, é era um quente dia, numa época distante em tantas manhãs e tardes, que nem sonhávamos com aquecimento global (eu disse sonhávamos?), meu Vô, o Seu Melquíades, trouxe da “venda” algumas dessas balas softs: redondas, coloridas e havia até transparentes – eram mais duras que rapaduras. O calor excessivo fez com que elas, embrulhadas em papel de pão, ficassem meladas e grudentas. Aquelas delícias redondinhas, cada uma com sua cor. De olhar já dava gosto. Caí dentro. Incauto, engoli uma sabor de uva – a minha preferida – e quase por causa disso, não vi chegar os anos 90. A partir dali, odiei e as alcunhei de “tampão”. Foi aterrador ficar com mãos meladas e com uma coisa sufocando, entalada, bem lá dentro da garganta, privando-me do ar. Aquilo foi para mim, tão horroroso quanto as balas perdidas e estupidamente gratuitas de hoje em dia. Balas soft – aquilo fora feito para matar as crianças. Só podia! Não soube de caso. Mas é lógico que houve.

Depois do sufoco, em que se passaram anos desse entalamento de goela e de mãos besuntadas e grudentas, tive uma impressão do episódio: ainda bem que perdi o gosto por aquilo – chupar, chupar, chupar e chupar um aperitivo tão duro e docemente ameaçador, poderia ter criando em mim, inocente criança então, certas condicionantes, ou injunções de ordem pessoal, que talvez hoje eu fosse uma prova, um elemento do espaço amostral, para justificar estatisticamente, que se Deus tivesse criado para o tal jardim do Éden, Adão e Evo, e não Adão e Eva, a idéia de paraíso não se perderia das bem-aventuranças.

Mas, calo-me aqui. Daqui a pouco me engasgo e fico grudado em “armadilha” conceitual-semântica, em um embaraço de idéias tentativamente verbalizadas.

Daí vão achar que eu seria a serpente melenta do Éden, que se arrastava no jardim, lá pelas virações do dia, maledicente e sagaz , que a pretexto de abrir os olhos do homem e da mulher, para serem conhecedores do bem e do mal, estaria a engasgar e a sufocar o razoável – oferecendo o fruto da árvore da ignorância: o preconceito. O que não. A verdade é que o meu desejo é só diversão. Ela me governa e me é quase irresistível não fazer um comentário sexista, mesmo que possa parecer politicamente incorreto.

Há saudosista que “ama de paixão”, a tal balinha soft. Chega dar até medo! Que seja assim, não se reprima, não se reprima… Deve-se ter o cuidado de não se engasgar.

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