Publicado por joelrogerio em Dezembro 26, 2006

“Tudo que eu entendo, entendo apenas por causa do que eu amo”.
Leon Tolstoi
A cueca vermelha era pra chamar amor. Nos outros anos foi branca, passou em branco…
Dinheiro nem tanto, mas naquele ano novo que brotava eu queria ser servido de amor.
A contagem regressiva, comecei às 19. Estava vestido da bendita cueca vermelha. 19, 20, 21, 22, 23, Zero hora! O firmamento brilhava aos bordões com o espocar dos fogos. Que zoeira! Fui à beira da praia tomada de gente, pulei as sete ondas que pareciam intermináveis.
Eu tinha pressa, já era ano novinho em folha. Fui à fila de um pai de santo. Quis ouvir o que ele fava pro fulano da minha frente, parecia que ele falava baixinho de propósito para eu não ouvir. Na minha vez ele voltou a falar normal. Disse que o ano anterior tinha sido muito arrastado pra mim. O que tinha sentido. Mas neste ano novo tudo iria ser diferente.
O ano pareceu todo carnaval. Tantos beijos, tantos “eu te amo” que não duravam um mês. Promessas de água abaixo. O coração transformou-se num quati velho, de tantos arranhados.
Só depois de um punhado de anos que descobri que de amor não se é servido, amor se serve, e generosamente!
♪ Roberto Carlos: Debaixo dos Caracóis dos seus Cabelos
♠ Blog aprovadíssimo: Ruas Sujas e Cheiro de Enxofre – Dmitri Tsirbala é um velho safado e boêmio, personagem de Adson Boaventura.
¤ Bom de ver – vídeo: Hyundai
¤ ABBA – Happy New Year
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Publicado por joelrogerio em Dezembro 21, 2006
Não os pinheiros, que não se vêem pelo vale do rio Doce, mas os flamboyants que se prodigalizam em florações, já na entrada de novembro, e se infestam de vermelho para a gente ver, são minhas árvores de natal.
Lá em casa da minha infância havia um. Coalhava o chão de rubro à época da floração. Era belo, só que por verter parte dos galhos para além do muro, incomodava a vizinha que não se embevecia com a árvore. Dizia que sujava o seu quintal. Veio o dia que disseram que as raízes estavam rachando o muro. Cortaram o flamboyant. Mas não deu nem tempo para ficar triste. Naquele ano o meu pai comprou uma sonata em suaves prestações na Loja Ondontótica e no amigo oculto meu irmão mais velho ganhou um “long play”
dos Beatles. Então os Beatles tocaram lá em casa “twist and shoud” noite e dia do natal que fez um domingo de sol quente na cara também…
Por isso em dezembro não faz frio neste vale. Se chover ou não chover, a gente sempre estará feliz na noite do natal.
♠Blog bacana:
Dias com árvores♪The Beatles
: Yesterday¤Vídeo:
The Beatles – I Should Have Known Better
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Publicado por joelrogerio em Dezembro 19, 2006

“De tudo o que é possível conceber no mundo, e mesmo em geral fora do mundo, não há nada que possa ser considerado bom sem restrições, a não ser, apenas, uma vontade boa.” Kant
Padecia da sede de justiça. No tribunal e mesmo antes de estar lá, guardava um ódio de fazer mal a mim mesmo. Pensava com uma mágoa introspectiva, que este era um país de instituições falidas, de gentes vendidas, da força da “grana”. Tive de enfrentar ameaças, o tribunal, para fazer valer a lei. Inconcebível nas circunstâncias em que a coisa é obrigação de quem tem o poder de polícia.
Ao término de tudo havia vencido. (Não sei bem se alguém vence em tribunais).
Nos corredores das faustosas instalações do prédio da lei, pago com pesados impostos, vi Márgara, que armada de sua beleza e perfume, é uma serventuária da justiça. Três beijinhos e disse-me que eu estava bem e também feliz natal. Mais alguns passos e Felipe, camisa verde-claro de seda e colarinhos impecáveis. Perguntou-me se eu houvera matado alguém. Encabulado disse-lhe, a meio sorriso, que ainda não (Deus que me livre). Estendeu-me os braços para um abraço fraterno e confidenciou-me com ótimos olhos que sentira grande alegria de me ver. Disse ainda que não entendia o meu sumiço. Eu disse pôxa, mas agora estou aqui… Ninguém imaginaria que alguém com um jeito terno daqueles pudesse ter sido partícipe de um racha que houvera vitimado o próprio amigo. Mas era passado, e eu o tenho em alta conta na minha afeição.
Às vezes acho que tudo que é pessoal e íntimo é que vale a pena. Só a justiça que nunca deverá deixar de ser impessoal e para todos.
♪ Música: A Vida do Viajante GONZAGUINHA/ Gonzagão
♠ Blog que merece prêmio: Apocalipse Motorizado.
¤Vídeo legal: Lagartixas.
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Publicado por joelrogerio em Dezembro 14, 2006
“A vida não se justifica pela utilidade, mas pelo prazer e pela alegria” (Rubem Alves)
Meu irmão espalhava-se no sofá. Minha cunhada sentada no outro sofá se deleitava vendo, no DVD, o clipe do Rod Stewart. Domingo passado eles discutiram de se cansar. Agora parecia que a paz entre eles não era breve. Então eu não sei porque diabos apontei o dedo pro meu irmão e disse: “Da próxima vez que você der um “ninja” na Nete e for curtir um domingão sozinho, lá no Rui, leva o Chocolate com você (Chocolate é o cão da casa). Ele riu um riso mais ou menos. A Nete falou que se ele levasse o cachorro, era para colocar uma sunga no bicho, porque era muito feio ficar tomando banho peladão na piscina. “Você ouviu, né Dino?” – Ela completou.
Foi a primeira vez que me engasguei com bombom. Mas eles riram muito mais!
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Publicado por joelrogerio em Dezembro 7, 2006

“
Eu quero amar, amar perdidamente !Amar só por amar: Aqui … além…Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente …Amar ! Amar! E não amar ninguém !“
(
Florbela Espanca)
Ela colocou a mão direita na minha nuca, a mão esquerda sobre a borda do teto do “carango”. Pediu para ficarmos. Afetuosamente dizia que o tempo estava para chuva. “Quando chove um temporal como o que está por vir, as estradas destas bandas viram um barreiro, traz muito perigo para dirigir carro. Tomem mais uns tragos e se acomodem”. Diante da nossa insistência de despedida, nos convidou para voltarmos mais vezes e que no próximo domingo a programação de Alto Liberdade seria das boas. Fitou-me com os olhos tão azuis e forçou o meu pescoço para acontecer um beijo. Constrangimento puro. Duas mãos no volante e não cedi. Então tchau, tchau, …, vão com Deus! Passei a primeira e arranquei o carro e a graça da mulher.
Certamente se sentiu a última.Cem metros à frente, gargalhadas uníssonas no carro. “Mas ela só queria um beijo, desses de mordidinha que você diz saber dar”. Dizia Adejander, saboreando o som de cada palavra. O Dotô Digo também não se calou, dizendo que nunca havia visto alguém de pescoço mais rijo. Mas só o pescoço! Rá, rá, rá…! Válber para não ficar de fora, nada original, cantarolou com uma voz pastosa, típicamente bêbado “ não interessa se ela é coroa,
panela velha é que faz comida boa”. Ah, Válber, pudera eu dar uma descarga!
E, assim descemos aos risos pela estrada poeirenta, parelha ao Rio Liberdade. Disse a eles que, já que achavam esse episódio tão interessante que colocassem na
Difusora para o Alcenir noticiar. Já que foi tanta notícia o refugo do Baloubet du Rouet, o meu refugo também daria IBOPE !
Até que a chuva da Dora veio e o pó tornou-se barro. Alguém, não me lembro, disse profeticamente “tamos fudidos”. Foi assim que o Escort (bofemóvel, como diria o Guidoni, mas mofando em casa!) deu-se a patinar estrada afora até girar e por poucas polegadas não encontrar uma parambeira com plantação de bananas. Isso colocou sobriedade em todos. Que continue a sorte!
Domingo outro, recompostos, estávamos de novo em Liberdade.
Dora estava lá sentada, coladinha a um homem de cabelos de cachos uniformes, olhos claros, branquíssimo como bruma e longe de ser galã. Não parecia jovem, mas tinha um quê de jovialidade em gestual. Ele acariciava o rosto lívido e maduro de Dora como se gostassem muito. O “forró pé de serra” fervia na cabana. Os dois, a mim parecia, sentiam-se a sós no mundo. Nenhuma grana tiraria-os daquela mesa sombreada por uma calabura. Quando acabei o grande copo de cerveja, tomei ânimo e como se vestisse um casaco de general, fui ter com os dois. Não sei por que “cargas d’águas” fiz isso.
Ela cortês e riso conhecido. “Fidélis, este é o Lu, ele sabe fazer a cabeça da mulherada. Jaque vai arrumar o cabelo com ele, lá em
Colatina, para o casamento!”. Galega desgraçada. Não me chamo Lu, não faço a cabeça da mulherada, ainda mais nesta acepção. Não a beijei no domingo da chuva, não por questão de distantes nossos anos de nascimento, foi só porque fiquei avexado com a turma.
Não me chateou Dora. Para um hipócrita como eu, isso era pouco!
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Publicado por joelrogerio em Dezembro 3, 2006

Não sou nada. Nunca serei nada. Não posso querer ser nada. À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Álvaro de Campos (Fernando Pessoa)
É um moleque da minha rua. É um diabo em forma de menino – um diabinho encarnado e sem rabo, diz a vizinha. Tem lá os seus sete pra oito anos. Peguei o neguinho no flagra, outro dia, desligando o medidor de energia da vizinha que o vê como o “coisa ruim”. Gritei para ele: “deixa de ser safado Ronaldinho”. Eu não sabia o real nome dele, mas é a cara escarrada do Ronaldinho Gaúcho, quando menino, então saiu Ronaldinho mesmo . Ele tremeu na base. “Não corre não seu ladino, se não conto pra sua mãe. A verdade é que não tinha a mínima idéia de quem fosse a mãe daquela criatura, se é que tivesse mãe. Então ele parou e pude falar-lhe.“Rapazinho, por que você não brinca umas brincadeiras que não chateiem os outros? Jogar futebol por exemplo, você até parece com craque!”. Ele pareceu satisfeito com que eu lhe disse, ou talvez por não ter-lhe dado uns tabefes. Falou-me com jeitinho de criança que já jogava bola, mas a bola havia furado e só praticava na escola. Lembrei-me de que guardava uma bola que ganhara num sorteio de uma loja de calçados. Presenteei o “Ronaldinho” com aquela bola que nunca havia sido chutada, com a promessa de que se tornaria um menino melhor. “Sem essas brincadeiras de mal gosto”.
O “Ronaldinho” jogava muito dizia a Tânia, que descobri ser sua professora no primário. “Se conservar o talento poderá ser um craque do futebol”. Egoisticamente conjecturei que lá por 2014 ou 2018, ele estaria lá na copa, dando um “show de bola” pela
seleção canarinho e diria nos microfones das redes de tevês de todo o mundo: “agradeço muito ao apôio que recebi de uma pessoa muito especial, o Joel, lá do Espírito Santo”.
É, quem sabe? Porém o Ronaldinho apareceu lá pelas redondezas da minha casa, então o chamei e ofereci-lhe um copo de leite com café, que ele adora. Perguntei-lhe sobre os seus desejos de futuro, assim como a gente fala com as crianças: “o que você vai ser quando crescer, hein Ronaldinho?” Ele respondeu-me “bombeiro”. Silenciei-me, e diante daquele silêncio, a criança que já tinha noção do mundo e das pessoas, achou que sua resposta fora para mim um sacrilégio… Ele não sabia que acabara de marcar um gol de placa no meu coração!
♪ Tocando em frente, com Almir Sater
♠ Blog de placa: Puro futebol. Nível de pureza controlado, adequado tecnicamente para a maioria das aplicações em laboratórios de análises futebolísticas.
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