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A flor no asfalto.

Publicado por joelrogerio em Novembro 27, 2006

O sacerdote e o levita passaram ao largo da vítima do assalto ( da bíblia dos cristãos – Lc 10).

Lá de cima alguém notou ao longo da paisagem verdejante, desnastrada pelas intermitentes chuvas do novembro, um entalhe no relevo contrastando o verde com ocre. Perguntou sussurrando, aos que estavam a seu lado, se era aquilo o corte do morro para abrir a estrada do contorno à cidade. Ninguém falou senão o pai nosso. O silêncio pedia-se. Naquele instante a ausência de outras falas era uma necessidade, uma exigência para que o homem religioso cumprisse o seu ofício: palavras de consolo e pai nosso, para descer à campa, o corpo daquele homem que todos achávamos bom e que a sua morte fizera a mim e a outros chorar. A resposta à pergunta sobre a estrada teve que esperar.

Quando o rito acabara, por um esforço de fé ou talvez por uma natural defesa para esquecer que não havia um porto seguro para aportar, respondi ao caro rapaz, que era bela a estrada que atravessava aquele longínquo morro. A pista era um brinco, perfeito pavimento asfáltico, e era muito larga também, boa de andar no automóvel, bonito para ver. Mas outro veio e disse que apesar disso, era sinuosa e que seus declives e aclives breves, ajuntados à imprudência e negligência dos motoristas, ceifaria muitas vidas.

Então mesmo aquela nova via, que me parecia um itinerário confortável, passou a ficar bem só em fotografia. Mesmo dentro do cemitério e carregando o pejo da angústia, quis ser moleque e falei ao chefe que o trenzinho que carrega a molecada pelas vias da cidade, não poderia nem pensar em rodar por lá, então. Ele me disse que eu deveria ter cuidado (ele sabia que eu houvera denunciado o tráfego do trenzinho ao ministério público). Eu achava que havia risco para a criançada. A turminha passeava solta, sem cintos, em horários de trânsito intenso. Isso ia frontalmente contra a educação de trânsito, que se deve dar aos pequenos. Deus nos livre e guarde, vai que um caminhão, ou qualquer veículo colidisse com eles, iria voar criança para longe! O chefe mais uma vez me admoestou: ” cuidado rapaz”. Pensei comigo: “imagine se ele soubesse que o dono do brinquedo motorizado, seguira-me de motocicleta por duas vezes, até o portão de entrada do trabalho, e para que eu pudesse vê-lo, ao adentrar o portão, ele do lado de fora, tirava o capacete para que eu o reconhecesse.

Voltando a falar com o chefe, buscando em mim uma a raspa de um humor requentado, disse-lhe que poderia ser eu o próximo da turma a vir para o descanso eterno daquele campo santo. Viria pela compulsoriedade de uma bala no peito. Ele, como um tutor, pediu pela terceira vez que eu tivesse cuidado. Falei: cuidado eu tenho, só que já me morreu o medo. E que se fosse para viver com medo neste mundo, preferia a campa. O chefe arregalou os olhos e não falou mais nada até sair do cemitério.

Está certo, sou “um bosta”, não nasci para ser herói – sou um tanto patético, não me acho bonito e nem sou bom. Já usei uns creminhos na cara, até já tentei ser um cara legal, mas às vezes nem sei o que falar, tenho uma mesquinha vergonha de falar “eu te amo” (fico sempre com pé atrás). Mas a praga da indiferença, com seu poder avassalador, companheira doentia do dominador e opressor, também dos que preferem as desigualdades, a violência, o ódio e a morte. A esta não sucumbirei. Os indiferentes, de uma forma ou de outra, ferem, rejeitam, excluem, matam. Está correta a conclusão: o contrário do amor não é o ódio, mas a indiferença. O exercício saudável da cidadania é um milagroso remédio contra o mal da indiferença, envolvem-nos com o sofrimento do outro e com a alegria de todos.
Aquelas estradas longínquas, com seus bonitos pisos de asfalto, ladeadas de vistosos arbustos, poderão ser sim, caminhos confortáveis. Haverá jeito. Haverá jeito!

Catedral, Música: Não Vou Te Esquecer

Blog da Vez: Voz do Deserto - Não, definitivamente não é chato.

¤Vídeo, November Rain: A great performance of the Guns N’ Roses classic with Elton John and a symphony orchestra.

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