A flor no asfalto.
Publicado por joelrogerio em Novembro 27, 2006
Quando o rito acabara, por um esforço de fé ou talvez por uma natural defesa para esquecer que não havia um porto seguro para aportar, respondi ao caro rapaz, que era bela a estrada que atravessava aquele longínquo morro. A pista era um brinco, perfeito pavimento asfáltico, e era muito larga também, boa de andar no automóvel, bonito para ver. Mas outro veio e disse que apesar disso, era sinuosa e que seus declives e aclives breves, ajuntados à imprudência e negligência dos motoristas, ceifaria muitas vidas.
Então mesmo aquela nova via, que me parecia um itinerário confortável, passou a ficar bem só em fotografia. Mesmo dentro do cemitério e carregando o pejo da angústia, quis ser moleque e falei ao chefe que o trenzinho que carrega a molecada pelas vias da cidade, não poderia nem pensar em rodar por lá, então. Ele me disse que eu deveria ter cuidado (ele sabia que eu houvera denunciado o tráfego do
trenzinho ao ministério público). Eu achava que havia risco para a criançada. A turminha passeava solta, sem cintos, em horários de trânsito intenso. Isso ia frontalmente contra a educação de trânsito, que se deve dar aos pequenos. Deus nos livre e guarde, vai que um caminhão, ou qualquer veículo colidisse com eles, iria voar criança para longe! O chefe mais uma vez me admoestou: ” cuidado rapaz”. Pensei comigo: “imagine se ele soubesse que o dono do brinquedo motorizado, seguira-me de motocicleta por duas vezes, até o portão de entrada do trabalho, e para que eu pudesse vê-lo, ao adentrar o portão, ele do lado de fora, tirava o capacete para que eu o reconhecesse.Voltando a falar com o chefe, buscando em mim uma a raspa de um humor requentado, disse-lhe que poderia ser eu o próximo da turma a vir para o descanso eterno daquele campo santo. Viria pela compulsoriedade de uma bala no peito. Ele, como um tutor, pediu pela terceira vez que eu tivesse cuidado. Falei: cuidado eu tenho, só que já me morreu o medo. E que se fosse para viver com medo neste mundo, preferia a campa. O chefe arregalou os olhos e não falou mais nada até sair do cemitério.
