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Posts de Outubro, 2006

Ao tempo do futebol com Badé.

Publicado por joelrogerio em Outubro 26, 2006

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Não substime a capacidade de ironia do destino. (Anderson Roberto de Carvalho)

É manhã com a graça das manhãs de generosas luzes – típica manhã em que todos os gatos são leopardos. Ajeito-me tête-a-tête com o micro, sei que menos de hora terei um pregão pela frente. Dona Alda traz-me uma fumegante dose de café. Pensei “essa senhora é bacana” e falei “é tudo que preciso agora, jogar um pretinho no peito”. O telefone não toca ainda. Costuma irritar-me, quando mal me ajeito na sala, e lá vem aquela campainha déspota para anunciar um pedido, para fazer-me uma inquirição, para colocar-me fardos. Não, não havia tocado e nem o Ramos ainda se apresentara para dar soluções mágicas a todos os problemas da humanidade com o seu prolixo vernáculo. Ele demoraria ainda pra chegar e dizer que era por causa desses pequenos detalhes que os aviões estavam caindo – Diria isso ao me entregarem um documento por engano, quando deveria ser reportado a outra pessoa. Mas antes disso, o Gato Mestre aparecerá sorrateiro, com o seu jeitão “vestes de cordeiro, sem ser lobo” – ” esperto de bom coração”, para falar que haveria uma “pelada” ao final do expediente. Pensei “nossa, hoje a minha máscara cai”. Não foi por uma só vez que eu houvera posado pra ele com minha “marra de jogar fácil”. Teve o dia que a passeio, e ao passarmos no gramado verdinho, nós em companhia do chefe– disse mesmo que a bola parecia colar na minha “caixa torácica”.

Se bem me aprouver, talvez conte pra todos o acontecido na dita pelada, mas em outro momento. Mesmo porque ainda não aconteceu. Como estamos na cara de novembro (no futebol a gente diz na cara do gol) e as cigarras machos, no morno da primavera, já se rasgam numa estridente cantoria para atrair umas fêmeas e outras, recordei-me de uma outra pelada. Vou rememorar, vou de “flash back”:

Quando combinei a “pelada” com a V-7, estava mesmo pensando em me criar em cima daquela turma.O Badé “dono de João Neiva”, havia passado na minha sala de trabalho com um largo sorriso na “lata”. – Olha Joel, não vai esquecer o nosso trato futebolístico! – Claro Badé, não vamos “bater fofo”.Horário de verão, um pedaço de dia ainda pela frente, o campo ladeado de gente com aparelhos nos dentes, as cigarras se “rasgando” de cantar nos arvoredos depois da cerca. Só faltavam fogos para virar festa.Calcei as chuteiras como quem pratica uma liturgia: dando peso a cada mínimo gesto. Depois a camisa de treino do Vasco para dar sorte e disfarçar a incipiente “pança”. Gel no cabelo seria demais…

Os “V-7” entraram em campo de mãos dadas e vistosamente uniformizados com direito a fotos com câmera digital e tudo. Pensei: depois do jogo vão deletar essas fotos por desgosto! Bem que disse o Alf, o Eteimoso no episódio em que ele viu a senhora vizinha peladona: “certas coisas só ficam bem na nossa imaginação!” Fui traído pelo ufanismo… Nem um minuto, um moleque, bem baixinho, chamado de “Bambu”, passou fácil por meio time e guardou a bola no barbante. Depois outro e mais outro e mais outro. Parei de contar no sexto. Não estava me entendendo com a “pelota” que parecia viva, com vontade própria e malvada. A garotada se multiplicava, só se via gente vestida de laranja no campo e jogando fácil. Estava travado, rijo, um touro praticando futebol. Quando ouvi os gritos de olé, tive uma brilhante idéia: em mais uma jogada pelas minhas costas (entenda no sentido literal), caí e já que estava caído, fingi-me de morto, recusando a enfrentar aquele mundo inóspito. Tínhamos um reserva: o professor Jésu. Bem que poderia ser Jesus. Saí…

Quando o jogo acabou, o Badé veio em minha direção e, como numa cena de “Pedro, o escamoso”, pensei: O Badé vai mangar de mim, mas um sujeito que mete um Wellaton para deixar o topete neste tom ruivinho, usa um tênis vermelho de velcro, não pode me gozar. Aí ele me falou – já jogamos juntos, agora só falta tomarmos umas cervejas lá em João Neiva.

O cara era melhor eu. E eu não merecia tomar cerveja alguma e nem um abraço de cachorra!

*****

Durante os jogos da Copa um comentarista da Globo tentou dar uma explicação sobre a origem da palavra “pelada”. Dizia ele que provavelmente tem origem no fato dos jogadores praticarem o jogo com pés descalços. Basta dar uma olhada no dicionário e verificar que “péla” é sinônimo de bola. Portanto o jogo “pelada” poderia ser denominado “bolada”.

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Blogs de cabeceira:

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*Escrúpulos Precários: O blog onde o buraco é mais embaixo.

*Clube dos Terríveis: Um blog com presença de espíritos.

*Ética: Viviane Mosé no Fantástico, realmente fantástico!

Sebastian Kehl Popout. Is that a legal? Video: Jogando futebol desprevenido.

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O Calendário da turnê para o outro mundo.

Publicado por joelrogerio em Outubro 18, 2006

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Quem conta um conto aumenta um ponto (Sabedoria Popular)

Os caras nem se gostavam, apareceram subindo a ladeirinha, lado a lado, coladinhos, dividindo um guarda-chuvas. Viviam se criticando, atirando-se farpas nada veladas, não seria uma chuvinha tão miúda que lhes abriria o coração à solidariedade. Até então eu sabia que em comum só tinham o branco dos olhos.

Foi então que o mais moço chegou lá na sala, bem mais falante que lhe é a praxe, tampouco foi logo “fominha” ao computador ver os “e-mails”. Falou “hoje é dezessete”. Disse-lhe, dezessete é número primo, alguma coisa contra? – “Não chefe, pelo contrário. Um evento de disparo cósmico acontecerá hoje, dia 17 de outubro. Os raios pulsantes de um feixe de luz ultravioleta, chamado de beam, de uma dimensão mais alta no universo, cruzarão a rota da Terra e estaremos sob influência desses raios durante 17 horas do nosso tempo, neste dia.”

Não segurei, ri na cara e perguntei se isso tinha a ver com ele vir grudadinho ao Luís. Um tanto grave, pediu-me que ficasse um pouco quieto que me contaria a boa nova. Disse-lhe “então tá”.

Chefe – ele me chama sempre assim – Este beam ressoa no chacra do coração. É de radiação fluorescente em natura, azul e magenta em cor. Apesar de ressoar nesta freqüência está acima do espectro de cores do nosso universo como, nós da Terra, conhecemos.

Pensei “minha nossa, ele é mais doido que eu supunha. Ah se eu pudesse dar um “mute” nele, como fiz com o Paulo Coelho, outro dia na tevê, tentando me ganhar com um papo de que só queria ir para a academia brasileira de letras porque pretendia garantir o seu futuro: quando ficasse velho e senil, teria algum lugar para ir conversar e tomar chá. Mas com o Ramos não dava, ele estava ali, em carne e osso. Pensei no lado positivo da situação: Era melhor ouvir do que ser surdo. Ele continuou a derramar o verbo: “Pela natureza de nossas almas ou grupos de almas operando nas bandas de freqüência do universo terá efeito sobre nós. Esse efeito será a ampliação de nossos pensamentos e emoções na intensidade de um milhão de vezes.”

Atalhei-o: Um milhão de vezes? “Sim – respondeu-me – um milhão de vezes mais. Cada pensamento, cada emoção, todas as intenções, cada desejo, não importa se bom ou ruim, doente, positivo, negativo, será ampliado mais de um milhão de vezes na sua intenção. O que isto quer dizer?” – Eu disse sei lá, é você que está falando! Ele não notou o meu enfado e continuou.“Já que a manifestação da matéria é causada pelos pensamentos, no que focarmos, este feixe acelerará estes pensamentos e os solidificará numa proporção acelerada, fazendo-os manifestarem-se um milhão de vezes mais rápido do que normalmente aconteceria. Para os que não compreenderam, criamos nossa realidade a partir dos pensamentos e desejos que focamos. Este feixe de luz poderá também ser um perigoso instrumento, pois se estiver focado em pensamentos negativos, eles se manifestarão na sua realidade, quase que imediatamente. Porém, ele poderá ser um precioso presente para que você possa usá-lo positivamente. A missão deste dia requer aproximadamente um milhão de pessoas focando positivamente, no bem, bons pensamentos para si próprio e para a Humanidade, neste dia. Poderemos estar próximos de um milagre pela união do bem.”

Falei – pôxa – você está parecendo pastor. Já pegou o dízimo do seu novo amiguinho? Contou-me que o Luís também estava sabendo da importância da data e que também iria “focar”.

Não dei muita trela para o teor daquela conversa místico-nonsense. Mas achei que ele falara bonito. Que coisa, como ele falara bonito! Por isso, na cama, antes da chegada do sono, comecei a pensar coisas boas, pra mim principalmente, e também para os outros. Dormi bem, feito criança. Acordei num belo dia dezoito de dar vontade de voar. Só que o meu lábio superior estava inchado e nem imagino o porquê. Passava pelo mulheril e escondia a boca com a mão. Chamaram-me de beiçudo no trabalho!

Música do Robbie Williams: Angels

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A comunidade – um mimo!

Publicado por joelrogerio em Outubro 12, 2006

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Pressuponha, meu preclaro, que você resolva sair um pouco na noite. Fisicamente você não quer lá muito ( aliás nem pouco). Está extenuado, mas não dirá não a si mesmo. Há um chamado de gente de amizade que não se perderá em conceitos e na memória. Mas se no outro dia quiser estar bem disposto para devorar todas as notícias dos jornais e jogar muita prosa fora? Quando se está numa mesa de bar com apreciadores de cerveja não é de bom tom tomar água.
Eu tomei as cervejas com desenvoltura, com os mesmos risos e maledicências. Não digo que foi “ah que bacana”. É que o Suela é um degenerador de virtudes, um desconstrutor de heróis. Ele bem que poderá dizer por aí, e até fará crer que as ações de São Francisco eram apenas artifícios ardilosos do capitalismo ainda nem embrionário. Possivelmente na meninice desse Suelinha, lá nos grotões de Marilândia, a fazer a digestão debaixo de uma jaqueira, um fruto caiu-lhe na moleira. E ele não muda, mesmo com aquela fausta argola dourada no anular da mão direita.

E o Meninão Gripa no “bem-bom” na oktoberfest – o Dag Possa e o Augusto Aranhomem é pouco para contrabalancear uma sola de sapato. Cadê o Bonatinho nesta cidade? O Giovany, está na capital? Ruan dorme cedo? Kiko Casoti não sabe que acabou o inverno?

Deixo para lá. Bem hoje, no dia das crianças a Vivi Borchardt, me vem dizendo isto: “Criei uma comunidade lá no orkut – Eu leio As Crônicas do Joel.” Um mimo. É isto: É um mimo! “Brigadu Vivi!”

Gonzaguinha: Eu Apenas Queria

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Planos para matar uma bruxa.

Publicado por joelrogerio em Outubro 11, 2006

A bruxa

“Vingança é um prato que se come frio, mas quem não adora um sorvete?” ( Palavras do repórter Pedro Bial, antes do jogo do Brasil e França, na Copa da Alemanha)

Estava tudo armado. Ela deveria ir pra vala no dia trinta e um de outubro, dia das bruxas. Esse seria o meu presentinho para aquele diabo encruado. Já não suportava mais aquela velha nojenta pisar o meu calo o dia todo, deixando a noite para eu ter pesadelos com ela. Meu amigo Nego Bom (eu não sei se é bem assim: “amigo e bom”) deveria fazer o servicinho sujo. Combinei que na festa da empresa ele seria o churrasqueiro. Eu sei que o Nego não entendia nada de churrasco, apenas de comer e fazer mal e porcamente umas galinhas roubadas, numas panelas também roubadas, dos incautos do meu bairro. Porisso ele entraria no segundo tempo, quando todos já estavam “altos de muito álcool no sangue”.

Falei pra ele no churrasco que a desgraçada que deveria comer do espeto com a carne envenenada seria aquela que gesticulava pedantemente e não parava de falar. Olha Nego – eu disse – a carne tem que estar mal passada, sangrando, ela gosta de sentir o gosto de sangue nas peçonhas. Capricha, senão ela te enfia este espeto goela abaixo. Ele disse que antes arrancaria as tripas dela. Eu disse pra ele “segurar a onda”, que o “troco” dele pelo serviço, já estava separado.

Deixei-me estar no churrasco, estava ansiossísimo pra vê-la estribuchar. Conversava com todos cordialmente para maquiar a podre e pérfida intenção. Para abrandar a ânsia, e também até para começar a comemorar, pedi ao garçon que me trouxesse uma generosa dose do “cavalinho branco”, pois eu estava muito afim. Tomei umas, umas, umas e outras, outras, outras…

O diabo trabalha de dia e de noite, já dizia meu avô que tinha parte com ele. Pois a megera se dirigiu docemente a mim. Disse que eu era o cara mais simpático da empresa. Chamou a filha – uma princesinha, que eu conhecia de vista e há muito a desejava – e me a apresentou. Disse que eu que era homem ideal pra namorá-la, e não aqueles “boyzinhos” imaturos que vivem cultuando o corpo, esquecendo-se da mente. Papo vai, papo vem e a gostosona parou na minha e começamos ali mesmo a nos pegar. Esquecei-me do Nego Bom e do meu plano. A velha arrancou da maneira mais engenhosa o ódio que me movia.

(…)

Quando senti a língua quente passar pelos meus lábios achei que estava acordando no paraíso. Achava que ainda estava sendo amado pela bonitona. Abri os olhos e vi aquilo peludo a me lamber. O que fiz foi dar um soco na cadela que me lambia (depois até fiquei com pena – o animal apenas quis ser carinhoso). A festa havia acabado. Todos haviam ido embora e eu não agüentei o tranco e adernei ali no estacionamento, atrás do meu carro. Sobrou-me a esperança do sucesso do plano. Resolvi passar no barraco do Nego Bom. Não estava.

Soube que o Nego estava namorando a gostosona, filha da megera, e que andava freqüentando a casa e até tomava banho na piscina, com uma ridícula tanguinha, tipo pele de tigre. E Ela o chamava de meu “Nego tigrinho voraz”.

Eles não perdem por esperar. Agora serão três na vala. O diabo trabalha de dia e de noite, mas a vantagem de ser velho não faz dele ser dois.

Múica do inigualável Grupo Kiss: Every Time I Look At You

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A cruz branca da estrada.

Publicado por joelrogerio em Outubro 1, 2006


“Não precisa correr tanto; o que tiver de ser seu às mãos lhe há de ir.” Machado de Assis

Já havíamos percorrido mais de légua. Não poderia estar errado. O homem que, com a foice em punhos, limpava o pasto à beira do asfalto, havia dito com todas as letras da sua simplicidade, que a entrada para Panorama era a primeira após a reluzente cruz branca, postada à beira do asfalto, que é ladeado de eucaliptos. Resolvemos parar e olhar toda aquela vastidão de grota. As taboas reverberavam à espetacular luz das dez horas, marcando verdejante o caminho do córrego Bley. O pasto, em setembro, é seco. Eram morros e morros estorricados. O gado se ajuntava a pastar o resto de verde na baixada onde havia uma porteira. Um casebre de aspecto secular, de estuque, telhado encardido, encravado, entre uma portentosa jaqueira e uma vistosa touceira de bambus, dava pista de humanos, brotando uma rala fumaça branca da chaminé.

Falei – “pai – vamos perguntar lá, se a gente está mesmo a caminho de Panorama”. “Ô de casa, ô de casa” – gritei. Saiu uma mulher com uma menina de uns quatro anos, grudada ao seu flanco esquerdo, segurada a um braço só. Meu velho deu bom dia. Eu disse olá. Solícita, disse que estávamos no caminho certo. Deveríamos passar pela porteira e subir a ladeira. Panorama estava a uns vinte minutos de pé – falou a dona da casa. Meu pai é do tipo que não se satisfaz com pouca conversa, mesmo que não venha à circunstância. Indagou a Marizete – assim que ela se chamava – se ela conhecia o Juarez, lá de Panorama. Ela respondeu que conhecia quase ninguém. Tinha chegado com marido e cinco filhos ali, na última “panha” do café, e ficaram pra cuidar do gado.

A “gastura” já me vinha. “Vamos embora, pai?”. Queria chegar logo no nosso destino. Pra mim, aquele carro empoeirado, aquela estrada de chão, aquela erma vastidão, era-me um mundo estrangeiro. Tomamos o rumo indicado, sem não antes ter que espantar uma vaca que, preguiçosamente, deixava sua obra em forma de um estrume mole, no rústico caminho.

Estava certo. A casa do Juarez tinha uma antena parabólica apontada para o morro que tinha um retalho de mata salpicada de prateadas imbaúbas. Era ladeada por um quintal de terra batida, que chamam de terreiro, com uma mangueira de uma altura pouco comum.

Ao barulho do motor do carro, saiu uma mulher de meia idade. “É aqui que morra o Juarez?” – perguntou meu pai”. É, mas ele não está em casa não – respondeu a mulher.

Meu pai puxou conversa, esticou conversa, desfiou uma lista de gente da qual ela sabia de todos e de alguns que até já haviam morrido. Aos mortos, sempre um espanto do meu velho: “Não me diga?” A prosa produziu alegria. A mulher lembrou de tudo. Ela era filha do Altoé e se casara com o Juarez. Meu pai disse que o mundo era pequeno. Eu pensei “Rio Bananal é pequeno”.

A senhora Amélia Altoé Grassi, convidou-nos para almoço. Agradecemos. Tínhamos pouco tempo. Tínhamos que passar na sede do município para resolver uma “papelada”. “Mas um café vocês vão tomar!” – Instou a generosa senhora. Um queijo curado num prato, noutro um verde (ela disse que era verde, mas era muito branquinho) e uma broa que derretia na boca, junto aos goles de café de sabor bom, que meu paladar desconhecia.

No meio da animada prosa, ouvi um pio de japira. De japira sabia que fazia um ninho de galhinhos e ciscos, numa forma de coador de café. Já fazia muitos anos que Romildo, um menino “encapetado” da minha escola primária, tomou um golpe de ponta de guarda-chuva, por ter zombado do afro cabelo da menina Gilcéia. “Ninho de Japira, ninho de japira, ninho de japira!” E o guarda-chuva pontudo fez brotar sangue do cangote do besta.

Pedi licença, queria ver a japira. Dona Amélia disse que a ave fizera o ninho na mangueira, ali no terreiro, que fosse lá que veria. Perscrutei galho a galho da alta árvore e, realmente, estava lá, muito mais belo que o cabelo do Romildo.

Retornando, estava a senhora mostrando o álbum de fotografia da família a meu pai. Uma bela filha, numa beca de formatura – “É a minha filha mais nova. Formou-se há dois anos e é chefe da enfermaria do hospital aqui do Bananal.” Noutra foto gente paramentada de casamento. Uma noiva divina. Era a filha mais velha, casada há cinco anos.

Guardou aquele álbum e retornou, um tanto triste, com duas fotos de um rapaz. Um rapaz de físico bem formado, talvez um metro e oitenta, por aí. Bochechas rosadas sob um par de raros olhos azuis. Com a voz cinzelada de nítido sofrimento, disse – nos que aquele era o Renzo, seu filho caçula. Há dois meses, vindo de uma festa à noite, pilotando uma moto, perdera a vida. Lá no asfalto, ladeado de eucaliptos, um pouquinho antes de entrar na estrada para Panorama. Era o morto da cruz branca.

Desde então, as cruzes de beira de estrada me dizem muita coisa. Mas não fico triste. Elas me dizem não corra Joel, não morra Joel. E soa como conselho de mãe.

Uma das mais belas canções: Bohemian Rhapsody, do QUEEN.

Blog de Cabeceira: Vi o mundo, o você que nunca pode ver na TV, do magistral Luiz Carlos Azenha

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