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A sobrenatural loura de Marilândia.

Publicado por joelrogerio em Setembro 19, 2006

“Você quer ser feliz por um instante? Vingue-se!Você quer ser feliz para sempre? PERDOE!” Tertuliano

Tremiam de medo. Digo melhor: urinavam-se por medo. Isso de saci, mula-sem-cabeça, capeta encardido, sempre botei mais crença que em papai Noel. A molecada do meu colégio primário, naqueles anos oitenta, talvez acreditasse mais no Noel. Mas da loura do banheiro, comungávamos do mesmo sombrio e mórbido temor.

Quando cresci só um pouco mais, desconfiei que essa estória de loura do banheiro ou “mulher de algodão” era lorota das professoras. Uma “veaca” invencionice das “tias” a fim de evitar a pedição para ir ao banheiro na hora da aula. Elas falavam do espectro, davam diversas versões à sua origem, mas no final, ela sempre se abrigava morta-viva, no banheiro da escola. Pálida e com algodão nos burracos do nariz para não derramar o sangue, que desprendia em decorrência de um bárbaro assassinato.

Lembro lá longe, na quarta-série, da menina que teve de voltar pra casa para trocar as roupas de baixo. A professora nos disse que em tempo frio era comum se ter incontinência urinária. Até hoje nunca soube de alguém que tenha mijado nas calças por causa de frio. Ainda se Colatina fizesse algum frio. Medo. Puro medo.

Nos recreios íamos aos bandos no metópio. Ninguém queria terminar por último. Havia sempre as “gracinhas” de se empurrar o retardatário, fechar a porta e segurá-la para fazer o desinfeliz, que já urinara, borrar-se de medo. E como curtíamos isso! Nós, um bando de potrinhos de ventas largas a respirar felicidade, a aproveitar da vida até o bagaço.

Lá em casa, meu avô já dizia que brincadeira tem aquilo “vermelho”, começa “bonito” e termina feio. Feito como dito: Num dia que nem estava frio, a molecada se espremia para se aliviar no mictório. Sobrei. Quando debandaram para fechar a porta, tentei segurar um franzininho, que escorregou no piso molhado, batendo a testa na quina do lavatório. Uma testa rachada e o sangue novo, sem hiperbolismo, corria em bicas. Lixaram-me moralmente todos. “O grandão havia passado a perna no menininho raquítico”. Primeiros socorros: pó de café pra estancar o sangue. Coisa das merendeiras. Foram à casa do menino, que morava perto da escola para avisar à mãe. Não estava, costurava o dia todo numa fábrica. Eram pobres. E eu mais ainda. Não me lembro de tanto mais. Embotaram-se os detalhes. Sei que depois daquele dia perdi completamente o medo da “mulher de algodão”. Ia sozinho ao banheiro. Cheguei até a horas lá dentro. Nenhuma mulher, nem mesmo a de algodão, quis fazer companhia a um bruto que machucava os pequenos.

Embotaram-me os detalhes. Mas é certo que o rachado na testa do raquítico e pobre menino cicatrizou. E eu, aos poucos, deixei de ser uma alma penada e definitivamente desacreditei em assombração.

Estas lembranças desenterraram-se há um ano, quando folheando o Jornal “A Gazeta”, li a reportagem: “Jovens vêem fantasma no Pico de Liberdade, Marilândia.” A estória é mais ou menos como segue: “um grupo de sete jovens, quatro homens e três mulheres, que faziam acampamento no Pico da Liberdade, município de Marilândia, o mais alto da região, viram uma mulher de vestido vermelho esvoaçante, flutuando, surgida do nada, perto de uma árvore. O aparecimento do espectro foi seguido de uma ventania súbita que fez cair folhas da árvore. O meu amigo Jef, o Suelinha, que é daquelas bandas, diria que fora a abstinência de gardenal que fez aquela “galera” ver coisas – diria isso com riso descarado ao final. Só que tem uma coisa: os “lemão” filmaram. É bem provável que estavam a filmar quando aconteceu o fenômeno. O rapaz que gravou o vídeo ficou uma semana sem dormir. O filme foi examinado por um professor de física que não viu qualquer indício de fraude. Aqui tenho que dizer que o dito professor é também de Marilândia.

Começo a rir quando imagino os “Lemão” descendo os três quilômetros do Cruzeiro da Pedra Alto Liberdade, de íngreme e tosca estrada que se enrosca montanha abaixo. Posso até vê-los rasgando o mato no peito. Paro de rir quando imagino que algum poderia ter rachado a testa.

Já acampei naquela montanha. Curtimos uma noite inteira naquela altitude, derredor ao cruzeiro, contando estrelas; ouvindo versos do Maiakovski , recitados por um amigo; ouvindo violão e voz e tentando descobrir, no frescor da noite, quais eram as cidades que se viam, nos clarões, ao longe. Até o descortinar do sol, a única coisa anormal, era nos sentirmos tão bem.

Conta-se que essa mulher fantasma, já fora vista, de vestido vermelho esvoaçante, por um agricultor, num cafezal, no entorno da montanha.

Qual será o desta alma penada?

Já ouvi por aí que almas ficam “penadas”, quando em vida cometeram erros torpes, foram cruéis e até pelo desconforto de uma grande injustiça sofrida, e assim, magoadas e desencarnadas, fazem pantomimas para chamar atenção e ganhar rezas para alcançarem a luz e ter uma verdadeira passagem desta para melhor.

Estou propenso a crer que fantasmas existem à medida que desaparecem os anjos. Não os anjos de asas, que nunca se vêem, mas os anjos de carne e osso, os quais chamamos de amigos, que acreditam em nós quando todo mundo já desacreditou, que nos tocam, que estão do nosso lado e nos dão a mão, que choram por nós e não nos fazem sentirmos sozinhos.

Bem, se a mulher do vestido vermelho esvoaçante de Marilândia foi injustiçada em vida e não conseguiu perdoar, talvez se tivessem amigos ou escrevesse nim blog, compartilharia a sua estória, e assim, um pouco aliviada, se libertaria do peso das correntes que a atam a este mundo, e não mais atazanaria os “Lemão” vivos da nossa querida Marilândia.


Aaron Neville Ave Maria

Blog “Modern Style” – Roski – ilustrador e careca : Para acompanhar bocejos, sonhos matinais

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4 Respostas para “A sobrenatural loura de Marilândia.”

  1. Nina disse

    hahahaha, essa loira é tbém do meu tempo, era um sofrimento danado sempre que precisávamos usar o banheiro da escola, ninguém queria arriscar. Com certeza, mtas vezes as lendas fazem vítimas, como nessa tua passagem da cabeça rachada, no nosso caso foi uma bomba no mictório que queimou um aluno.Coisas de colégio, se formos relembrar tudo, cabe escrever um livro… Um abraço.

  2. Alvinho disse

    Ei,

    Muito legal essa história, e mais legal ainda é que vc escreveu para o conhecimento de todos. Nós somos praticamente da mesma época e estudamos nas mesmas escolas, mas eu não lembro dessa “loira do banheiro”, tinha o maior medo do “bicho papão em cima do telhado”, esse sim, era aterrorizante, principalmente em dias de temporal, naquele barraco de dois cômodos de madeira e coberto com telhado de eternit que parecia que ia voar e deixar entrar o “bicho papão” que estava só esperando a oportunidade que estava na eminencia de acontecer.

  3. Anonymous disse

    I say briefly: Best! Useful information. Good job guys.
    »

  4. Rodrigo disse

    Oi Joel,
    Muito interessante a crônica sobre a mulher de vermelho de alto
    liberdade,
    Rapaz só agora fiquei sabendo que ela existia!
    Inteligente e bem humorada, do jeito como o tema tem que ser abordado,
    achei
    mais interresante ainda é que tive o prazer de estudar com “Jef
    Suelinha”,
    figuraça! e aquele comentário ficou a cara dele.
    Como já deve estar sabendo, as pessoas que fizeram aquelas imagens,
    fizeram-nas por acaso, pois não viram a mulher de vermelho lá no local
    somente na gravação vista alguns meses depois!

    valeu, muito bom…

    Rodrigo Lorencini – Marilandia – E.S

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