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Sobre flores e formigas cortadeiras.

Publicado por joelrogerio em Setembro 17, 2006

Há pessoas que choram por saber que as rosas têm espinhos, outras há que sorriem por saber que os espinhos têm rosas.Circunda-te de rosas, ama, bebe
E cala. O mais é nada!
Fernando Pessoa

Decidira então, ela, que deveria cultivar rosas. Poliantas – pois haveriam de florir generosamente, pelo ano todo, o jardim lá de casa. Certificou-se dos cuidados que deveria empreender para o cultivo de seu sonho florido.

Brotaram viçosas e, em pouco tempo, produziram-se vistosos cachos carmins. A satisfação da contemplação não durou mais que um ciclo de floração. Apareceram as formigas cortadeiras e que, por sua natureza, desfolharam todo aquele jardim. Minha mãe bem que tentou combatê-las, mas soube-se que elas nidificavam num quintal vizinho, onde morava uma gente de muros altos… Então fora um jardim de notáveis rosas, que se reduziu a um solitário tinhorão.
Já distante no tempo e espaço, daquele frustrado jardim, fui assistir à X-Man 2. Tive uma opinião e um sentimento sobre o filme: era fantástico. Bem, não manguem de mim, é que como os mutantes do professor Xavier , sempre achei que compartilhar o mundo, nunca fora um dos atos mais nobres da humanidade. E a galopes veio-me a comprovação. Saindo da sessão de cinema e ao tirar o carro do estacionamento, trisquei numa moto, que colada entre os dois carros, veio a cair e a tocar o guidão no carro estacionado à frente. Nada de mais no veículo da frente: uma mácula do atrito da borracha do câmbio da motocicleta na pintura branca e um um amassado, que para saber, era preciso passar o dedo mindinho, porque não vinha aos olhos. Mas o dono, aos berros, pediu que eu saísse do carro. Xingou-me até exaurir o seu torpe repertório. Era de crer que eu até havia esbofeteado a mãe dele. Bem, ocorreu-me de plantar as minhas impressões digitais naquela cara larga. Mas os que me conhecessem e falam comigo, sabem bem que não combina comigo. Na verdade não combina com nada. Então não me medi por aquele “playboyzinho” e combinei que lhe pagaria o que quer que fosse para que o seu “novíssimo carro” continuasse a seu contento. Veio a conta e soube depois que o rapaz havia incluindo também um outro serviço, que não fora fruto do incidente, na minha despesa. Não reclamei, era pouco mais que uma ninharia.
Um amigo – que a todos dizia “ sou tricolor de coração, sou do clube tantas vezes campeão”, numa época em que o Flu nem era tão freguês como hoje é do Vasco, zangou-se comigo (e juro que não me lembro mais do porquê), mas tenho certeza que ele tinha boas razões, deixou de falar comigo. Guardei o quinhão de apreço que lhe tinha. Nunca poderia me esquecer de sua generosidade: eu sem “grana” e ele mais coração do que tricolor, conseguira todos os livros que eu necessitava para a faculdade.
Falei-lhes isso tudo, pois é conveniente dizer que viver é difícil. Mas difícil mesmo é viver apenas um dia.
Minha mãe, não desistiu de seu jardim. Agora ela tem uma plantação de bougainvilleas, que inclusive ajudei a plantar, que já flora a uma altura que pode ser vista pelos vizinhos de muros altos.
Pasmem! Nunca de fato desejei o mal ao rapaz do novíssimo carro branco da sessão de cinema, mas num passeio por uma tarde de sábado, vi-o colidir seu precioso veículo na traseira dura do ônibus da Joana D’Arc. Foi um estrago. Como fui o primeiro a chegar ao acidente, notei o seu desespero ao falar ao celular, não sei com quem. Não me senti vingado pelo destino, não senti nada: nem alegria, nem tristeza. Só vi que a vida é maior do que a gente.
Semana passada, e depois de anos passados, meu amigo tricolor estava a passear com uma criança pelas mãos. Eu sabia tratar-se de sua filha. Mas engoli meu orgulho à “cowboy” e perguntei (à moda de quando trocávamos confidências, em que ele dizia que eu engolira um dicionário): Luka, essa loirinha linda é seu rebento? Ele feliz e com seu perene humor, disse sim. E que ela “rebentava” com seu orçamento. Então éramos amigos de novo. E muito pouco mudou. Só o Fluminense que agora é um freguês de Carteirinha do Vasco!
Viver não é tão ruim. Ruim é viver um dia só.

Celebrando com Faith no More – I Started a Joke.

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7 Respostas para “Sobre flores e formigas cortadeiras.”

  1. Kafé Roceiro disse

    Você escreve tão bem que me imaginei lá do lado do cara dono do carro que deu o xilique e imaginei vc com cara de quem não estava entendendo!
    Escreves muitíssimo bem!
    Gosto de passar por aqui e ler suas crônicas…
    Parabéns.
    Kafé.

  2. Rosario Andrade disse

    Bom dia Joel!
    Adorei esta crónica. Ampla e com multiplos centros. Como a vida!
    Bjico

  3. Isabelahttp://www.byisabela.com.br/ disse

    Perfeita essa frase do Pessoa!
    Tirou de qual livro ou texto?
    Gostei do post, como sempre.

  4. Joel disse

    Isabela, o texto é de minha autoria.
    Obrigado pelo comentário. Aliás, agradeço a todos pela gentileza dos comentários.

  5. Anonymous disse

    Great site loved it alot, will come back and visit again.
    »

  6. bravohttp://fernandobravo.blogspot.com disse

    Porque será que as pessoas perdem tão facilmente as estribeiras no que toca ao trânsito e aos carros? Enfim, você lidou bem com a questão.
    Abraço!
    Ah, e boa sorte para a sua mãe com as buganvílias!

  7. Floreshttp://www.lojadasflores.pt disse

    Magnífica citação de Pessoa. E um belo texto do autor – que felicito. Um blog de qualidade… voltarei mais vezes.

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