“A lição sabemos de cor. Só nos resta aprender.”- Fernando Brant
Sem perceber eu havia escorado os cotovelos no parapeito da varanda. Nem fora o vento, que não havia, que teria me açulado àquele gesto. Às vezes até uma folha que se desprende da cabreúva que se expõe magnífica à vista da varanda lá de casa, faz-me mover. Estranha a dispersão ajuntada de abatimento incomum que houvera me paralisado. Busquei recrear minha fastigada vista no rio e nos prados do entorno. O rio, assoreado, expunha em seu leito, vastos e múltiplos bancos de areia, jogando na nossa cara o descaso antigo; e pelo longe, na direção de Santa Margarida, brotava uma fumaça de queimada de pasto que se espalhava pelo vale, tornando ainda mais débil a luz daquela monótona tarde. Era curioso como o fogo na pastagem se aproximava de uma solitária árvore que lembrava o cedro estampado na bandeira do Líbano. Vinha-me à mente, tão inevitável, as imagens dos escombros dos prédios em ferragens retorcidas, dos tantos mortos, das gentes em desespero tentando fugir dos bombardeios de Israel sobre Beirute e outras cidades Libanesas, para aniquilar a qualquer preço o Hizbollah. Era agosto. Sempre fugi de ser estúpido. Corro de ser estúpido, tropeço na estupidez. Não queria acreditar que agosto fosse o mês do desgosto. Já ouvira isso, mesmo lá dentro de casa. Pensei no agosto passado, havia tomado a primeira multa de trânsito, em anos de habilitado. Dias depois, as dezesseis válvulas do motor de meu carro se multiplicaram em prejuízos (até pensei em pagar o Visa com o Mastercard). Lembrei-me do balaço do Getúlio, da “noite de São Bartolomeu ou massacre em nome de Deus”, que aprendi nas aulas de História com o Caetano, lá no Polivalente. E, para mais, havia entes queridos falecidos naquele mês. Pronto: Já tinha me transformado num completo estúpido. Tirei os cotovelos. Pensar é essencialmente errar – já dizia o Caeiro. Resolvi agir espairecendo-me pela cidade. Estava de férias, afinal. A locadora de vídeos, iria lá. Na altura do Colégio Antônio Nicchio, que mal, encontrei pedras no caminho, não pedras quaisquer, eram pedras enormes de granito, sobre fileiras intermináveis de carretas que faziam um manifesto e bloqueavam o meu caminho e de tantas outras gentes. Queriam os carreteiros a revogação do decreto de proibição de trafegarem pelas vias da cidade. Deixei estacionado o carro no lugar até onde pude chegar. Caminhando vi o Gu Braga. Acenou-me, e por obrigação, como quem joga algo fora, respondi ao aceno. Atravessei o quase quilômetro inteiro da Florentino Ávidos a pé. Já fizera aquilo antes e me parecia de há muitos séculos. Nos séculos em que havia o supermercado Morita, a Loja Odontótica, a Caderneta de Poupança Tamoyo. Nos séculos em que eu não perdia por nada os filmes do Giuliano Gemma, nas matinês do Cine Gama ou do Cine Idelmar, tampouco as domingueiras do Clube ACD. Quando do Zoológico do CREB: quantos e quantos ontens! Uma lâmina d’água que não encobria sequer um tornozelo, era o que passava debaixo daquela ponte. A despeito de tudo, mesmo que se passasse um caudaloso rio ali, não me jogaria. O “troço” estava ruim, mas não para morrer. Mesmo que fosse pra morrer, teria que ser bonito (se é que se pode). Talvez numa colisão com aquele trambolho com a inscrição “Bondinho da Alegria” que trafega pela cidade, carregando os pequenos, até pela noite, sem cintos de segurança, em bancos de madeira, a fazer festa, mas que por um milagre nenhuma criança, e ninguém mais se ferisse, que só eu morresse. Assim notar-se-ia o desserviço à educação no trânsito, um descalabro da nossa cidade, onde se multa por causa do carona sem cinto e deixa-se ganhar dinheiro às custas de riscos para inocentes. Mas não queria morrer. Os olhos que vêem tão moribundo o doce rio, querem mais ver! Então desci pela cabeça da ponte – a nossa ponte tem cabeça e quebra-molas – entrei na primeira Lan House que veio a frente, para mergulhar no mundo virtual. Queria outro mundo, encontrar meus amigos. Foi então que entre messengers, e-mails e sites, lá estava escrito no perfil do Bonatinho, no orkut, como uma fogueira numa noite gelada: “Um rapaz humilde, de boa índole e apaixonado pelos estudos (belelza)! (…) E com o coraçãozinho acelerado por uma paixão, completamente cheio pela namorada, que quando está perto me tira o fôlego, me deixa bobo e com vontade de nunca mais ter que me despedir… Margarida, amo você!!!” Fez-me mover bem mais que todas as folhas da cabreúva em dias de vento. Desconfiei que me enganara sobre agosto. Já me fazia bem saber da festa de aniversário da cidade, ver toda a gente a passar nas ruas. Esqueci-me das mentiras que me contei… A verdade era agosto o mês de decisão. O descuido com o carro vinha de outros meses, o problema do trânsito da cidade era de muitos janeiros. O rio nos expõe em agosto o seu definhamento, para que, quem sabe, o salvemos. E foi bem nesse agosto que começou a construção da outra ponte sobre o Pancas, para tirar da cidade, o trânsito das medonhas caretas. Ao retornar, no mesmo a pé, pela Florentino Avidos, notei um pôr-do-sol que nunca vira neste e nem em outros séculos. Vi um pôr-do-sol com os mesmos olhos que a terra não há de comer tão cedo e que além do mais tem um coração lá dentro. Havia Deus em agosto.
Música da Banda Catedral: Sol de Primavera
Fotos de Colatina – ES, Brasil.
Clipe sobre o Rio Doce











dos, vindo em direção à mochila, onde estava guardado o lanche que

