Pra fazer neném.
Publicado por joelrogerio em Agosto 22, 2006
O medo faz parte da vida da gente. Algumas pessoas não sabem como enfrentá-lo, outras – acho que estou entre elas – aprendem a conviver com ele e o encaram não como uma coisa negativa, mas como um sentimento de autopreservação.
Senna – Junho 1991
Diziam uns que ela morava no Morro do Cristo, outros que era na rua da Lama e ela jurava que sua residência era no centro da cidade, bem perto da matriz.
Ela, quando chegava triste, a gente já sabia, “nossa, a Kombi vermelha já pegou mais um”. Então, Ghéti começava a debulhar os horrores. “Mas gente, ele era lá do outro lado do rio e a mãe dele viu quando o pegaram pelos braços e o colocaram na Kombi. Lingüiça, eles estão pegando a meninada pra fazer lingüiça. Eu conheço a família dele. Foram à polícia e a polícia nunca pega os caras”. O medo mesmo começou a me contaminar quando, toda rota, suada e com os joelhos relados, a Ghéti chegou pedindo água com açúcar, disse que fora perseguida, ali na rua de baixo, bem perto da minha casa, pela maldita Kombi. “Danou-se”, falei pro meu umbigo. Estou mesmo ferrado, não posso mais sair de casa, senão viro lingüiça.
Lá em casa o pessoal dizia que essa tal Ghéti era cretina, “mentirosa de marca maior” e que lá na polícia não havia nenhuma ocorrência. Um menino estava desaparecido sim, mas ao que tudo indicava, ele quis desaparecer dada a causa dos maus tratos que recebia em casa da madrasta. Já havia pistas de que ele estaria em Governador Valadares.
Que o menino estivesse em Valadares, em Vitória, em São Paulo ou na Conchinchina, o medo continuava a me paralizar a ponto de querer de deixar de ir à escola.
O tempo passou, a Ghéti sumiu do mapa. Disseram que ela mesma havia virado lingüiça. Com o sumiço dela, a tranqüilidade voltou. Nada mais de ruim acontecia, exceto alguns dedos esfolados nas ”peladas” do Cantão.
Não é que passados anos, estava eu e o meu velho, a comprar na feira livre e a Ghéti estava por lá, barriguda, carregava um filho no ventre. Arguta, pechinchava preço em tudo. Não falei com ela. Mas deu-me uma vontade bruta de dar-lhe um beliscão, assim como ela fazia com a gente e dizê-la: “ Aê dona Ghéti, quer dizer então que o pessoal da Kombi vermelha mudou de ramo, agora deram a fazer neném?

Jonas disse
Demais!