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Posts de Agosto, 2006

Jefferson e o Calangão.

Publicado por joelrogerio em Agosto 28, 2006

Calango no verão de Guarapari

“O grande homem é aquele que não perde o coração de criança.” (Mêncio)

Meu amigo Jefferson, Jeff para os íntimos, sempre foi desses que desconfiava de tudo e de todos, até dos amigos. Se alguém lhe contasse um causo, ou um fato histórico, o que quer que fosse, sempre que lhe interessasse, ele ia confirmar nos livros ou com outras pessoas. Dizem até que uma vez ele armou uma arapuca na sala pra ver se capturava algum gnomo, desconfiado de que realmente existiam, mas só pegou um calango gigante que acabou adotando como seu animal de estimação, aliás, um belo calango que conheci por fotos.Houve um tempo em que o Jeff andava tão comprometido com as suas desconfianças,que chegou a cogitar a possibilidade de só ele existir de verdade, as outras pessoas seriam apenas fruto de sua imaginação – devo confessar que por volta dos meus onze, doze anos, cheguei a pensar nisso também – desconfiando, assim de toda a realidade que o cercava, inclusive do calango gigante. O tempo passou e o Jeff percebeu que era muito complicado convencer as outras pessoas disso e a ele mesmo e abandonou essa teoria difícil, mas tentadora.

Uma coisa que Jeff nunca atentou, foi para o tamanho do seu calango de estimação, o Jeff tinha 1.79m de altura e o Calango batia na cintura dele, impressionante. Na sua casa não havia problema de gatos, todos fugiam com medo do Calango. Mas o Calango era a paixão da sua vida, dizem até que rolava algo mais entre eles, mas isso é apenas boato. Para se ter uma idéia o Jeff nunca havia dado sequer um tapa nesse Calango. Era aí que morava o problema. O Tropidurus torquatus era muito folgado e bem inteligente.

Tudo ia bem entre os dois até o dia em que o Jeff foi trabalhar e esqueceu de alimentar o Calango. Antes isso nunca havia acontecido. Aí foi o motivo para a tragédia. Logo que o Jeff chegou do trabalho notou que o Calangão estava meio inquieto, ficava pulando, batendo na porta, parecia estar apavorado. Notando tal agitação, Jeff abriu a porta rapidamente e começou o massacre. Uma luta quase inimaginável entre um ser humano e um calango. Luta não, o ser humano não teve chance, como já disse foi um massacre. O Calangão devorou o Jeff. Após isso tudo, o Calangão, que era um ser super inteligente, foi ao cinema assistir à Beleza Americana e até andou comentando que o filme tinha um estilo que ele “curtia muito” assim…” um tanto rodrigueano” (para quem não entendeu, quer dizer que o filme tem um enredo um tanto parecido com as estórias de Nelson Rodrigues – aquele torcedor ilustre do Fluminense que disse a célebre frase: “toda unanimidade é burra”).

Dizem que o Calango foi visto recentemente, com um sorriso cativante e também vento na cara, dentro de um Toyota Solara Convertible vermelho de rodas largas e confortáveis poltronas de couro legítimo, trafegando pela orla de Camburi, a palitar os dentes!

Fresno – Onde está

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Pra fazer neném.

Publicado por joelrogerio em Agosto 22, 2006

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O medo faz parte da vida da gente. Algumas pessoas não sabem como enfrentá-lo, outras – acho que estou entre elas – aprendem a conviver com ele e o encaram não como uma coisa negativa, mas como um sentimento de autopreservação.
Senna – Junho 1991

Volta e meia, meia volta, aparecia do nada lá na nossa rua. Ghéti, assim que a chamavam. Seria mais uma no meio da criançada, se não fosse tão grandona e não tivesse o ácido dom de povoar o jardim da nossa infância com crimes, que hoje saberia, sem qualquer suspeita ou dúvida, que se tratava de mentiras deslavadas.

Diziam uns que ela morava no Morro do Cristo, outros que era na rua da Lama e ela jurava que sua residência era no centro da cidade, bem perto da matriz.

Ela, quando chegava triste, a gente já sabia, “nossa, a Kombi vermelha já pegou mais um”. Então, Ghéti começava a debulhar os horrores. “Mas gente, ele era lá do outro lado do rio e a mãe dele viu quando o pegaram pelos braços e o colocaram na Kombi. Lingüiça, eles estão pegando a meninada pra fazer lingüiça. Eu conheço a família dele. Foram à polícia e a polícia nunca pega os caras”. O medo mesmo começou a me contaminar quando, toda rota, suada e com os joelhos relados, a Ghéti chegou pedindo água com açúcar, disse que fora perseguida, ali na rua de baixo, bem perto da minha casa, pela maldita Kombi. “Danou-se”, falei pro meu umbigo. Estou mesmo ferrado, não posso mais sair de casa, senão viro lingüiça.

Lá em casa o pessoal dizia que essa tal Ghéti era cretina, “mentirosa de marca maior” e que lá na polícia não havia nenhuma ocorrência. Um menino estava desaparecido sim, mas ao que tudo indicava, ele quis desaparecer dada a causa dos maus tratos que recebia em casa da madrasta. Já havia pistas de que ele estaria em Governador Valadares.

Que o menino estivesse em Valadares, em Vitória, em São Paulo ou na Conchinchina, o medo continuava a me paralizar a ponto de querer de deixar de ir à escola.

O tempo passou, a Ghéti sumiu do mapa. Disseram que ela mesma havia virado lingüiça. Com o sumiço dela, a tranqüilidade voltou. Nada mais de ruim acontecia, exceto alguns dedos esfolados nas ”peladas” do Cantão.

Não é que passados anos, estava eu e o meu velho, a comprar na feira livre e a Ghéti estava por lá, barriguda, carregava um filho no ventre. Arguta, pechinchava preço em tudo. Não falei com ela. Mas deu-me uma vontade bruta de dar-lhe um beliscão, assim como ela fazia com a gente e dizê-la: “ Aê dona Ghéti, quer dizer então que o pessoal da Kombi vermelha mudou de ramo, agora deram a fazer neném?

Cogumelo Plutão - Esperando na Janela

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A dança das pedras.

Publicado por joelrogerio em Agosto 7, 2006

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“O que não provoca minha morte faz com que eu fique mais forte” (Friedrich Nietzsche)

Celi, olhe em mim,
Veja o pesado céu plúmbeo:
Não vai chover.

Os ventos alísios que meneiam os cabelos,
caprichosamente penteados deste amigo,
Conjugam trajédias e carnavais num mesmo tempo.

Celi, o mundo acabará !
O
Rio Doce que corta nossa cidade quase ao meio,
Está de cortar os olhos ao meio.

O céu é um quebra cabeças,
Ou um quebra corações ?
“Pro- réu”

Querem, os bons companheiros,
Aqui do
Espírito Santo,
Com os quais dividimos ocasiões;
Ouvir-me como canções.
Quem sabe num domingo?
O diabo é surdo e mudo.

Por enquanto,
Dentes quebrados.
Estórias no sótão.
Latitudes.

O amor,
O amor não é real.
O amor não quer dizer seu nome,
Da mesma maneira que o sol
Que declina serenamente,
Num belo horizonte,
Prosperando no sentido das Minas Gerais.

Amália Rodrigues: Fado da Saudade

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Buchada à Francesa.

Publicado por joelrogerio em Agosto 3, 2006

“Sou honesto, mas não sou fanático.”
(Seu Madruga)

Era o aniversário do Cabelo-de-Lobo. Então ele me puchou pelo braço, tirando-me do meio daquele povaréu todo. Apesar da evidente embriaguez, parecia-me a mim, ele estar triste. “Godao, preciso revelar-lhe um segredo”. Olhei pra ele e disse pra ver bem o que iria falar. Vá que eu concorde. “Deixa de ser besta Godão. É um segredo que além de mim só o Capota sabe. E é pra você não comer da buchada do carneiro. Você não sabe como o bicho chorou lá em cima da camionete. Chorou os sessenta quilômetros de viagem e aqui antes de morrer chorou muito mais, parece que adivinhava que iam dar cabo dele”. Disse para o De Lobo que poderia ser impressão dele, o bicho bale, era isso, ele balia e não chorava. “Chorava sim, e não era pouco não. Isso tudo por um capricho do Marcélio: comer buchada no meu aniversário. Ora bolas, buchada! Tem até picanha na churrasqueira. Porque o bichinho teve que morrer?” Mas De Lobo – eu disse – que mal há em comer? Agora o bicho já morreu mesmo! E o Marcélio disse ali, para aquela turminha, que até o Fernando Henrique já comeu buchada e que lá na França é um “must”. De súbito, De Lobo espalmou a mão no meu tórax, como se a me conter – “ Na França o caralho”. Eu e o Capota misturamos a urina da bexiga do carneiro ao tempero do Marcélio. Não preciso falar à minha família, pois já não comeriam buchada nem mesmo lá na França.”

Ah, se é assim! (…)

O Marcélio, liturgicamente, movia os talheres e degustava prazerosamente a buchada, dando vazão a seu appétit . Eu, Cabelo – de – Lobo e Capota, erguíamos nossas tulipas de Chopes para um Tim-tim, porque beber sem brindar, sabe no que dá? Ríamos a todo. Disse então a De Lobo, como digo a meus grandes amigos em aniversário: Feliz aniversário. Que você tenha uma vida longa, mas cheia de felicidades!

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