Haja coração, isto é dinheiro!
Publicado por joelrogerio em Maio 31, 2006
Meu avô, que Deus o tenha e que esteja um quentinho por lá (está fazendo frio nestes dias), já implicava com esses beijadores de camisa. “Os jogadores só querem saber é dos dólares, de muita grana. Aparecem nos clubes, beijam a camisa e não perduram a um campeonato. Antigamente se jogava por amor à camisa. O amor ao clube vinha em primeiro e quase exclusivo lugar. Nilton Santos, a enciclopédia do futebol, foi uma vida de Botafogo. O Mané, apesar de suas irreverências, podia até trair a mulher, mas ao Fogão, nunca.”
Eu poderia dizer ao avô que jaz, que agora os tempos são outros. Isso não implica em dizer que não há mais romantismo ou que o amor esteja em desuso. Já faz um bocado de tempo que o foco é a qualidade de vida. E qualidade de vida se faz em ambientes onde é propício o desenvolvimento profissional. Pouquíssimos são os clubes brasileiros que estão aptos a dar condições como as equipes européias. É lógico que não sou nenhum “tolinho” de acreditar que a grana não fala alto nestes tempos em que o consumismo grita pelos holofotes do marketing.
Hoje em dia já não se é mais feliz apenas com cachaça misturada a groselha (dizem que o Mané se amarrava). Há um mundo de produtos que nos promete remeter ao céu, e subliminarmente nos dizem que é pouco provável que sejamos verdadeiramente felizes sem eles. Eu mesmo, que não sou lá tão consumista, fiquei, dia desses, numa querência inquieta por um veículo, depois de ver o anúncio da tevê, em que uma tribo canibais africanos fazendo um rito com danças em torno de uma fogueira, e de repente aparece um garotão, com cara de rebeldia, do meio de um nada da savana, e sem nenhum propósito, sorrateiramente o “filho da puta” joga um balde de água na fogueira dos tribais, apagando-a, que enfurecidos partem pra cima do abusado, que abre o peito ao vento e ao matagal, até chegar em uma estradinha onde está o “carro objeto do desejo” e arranca em disparada deixando os negos canibais a comer poeira. Estava a assistir ao telejornal local, então soube que o garoto Thiago Santos, atacante que marcou o único gol do time sub-20 do fluminense, na goleada de 13, para a seleção brasileira, é daqui do Espírito Santo, mais precisamente da vizinha Linhares. O empresário do menino dizia à repórter que já tinha propostas de times europeus e que o próprio Clube das Laranjeiras teria uma boa, para a sua permanência. O satisfeito pai sapateiro e a orgulhosa mãe, empregada doméstica, entoavam o prenúncio da glória que a promissora carreira do rapaz traria para suas condições materiais.
Parece óbvio, devido às circunstâncias, que a paixão clubista, fique para o final da carreira. O Romário, se achando Highlander, disse que retornará ao Vasco. O Juninho Pernambucano, na mesma linha, fala em terminar a carreira no clube da cruz de malta. Ronaldo Fenômeno, sonha ainda em jogar no Flamengo, o seu clube de coração (imaginem o Ronaldo, lá no Maraca com cem quilos – dureza, hein?). Interessante que estes craques fazem o inverso do que fez o Zico que foi para a Itália, depois para o Japão, quando já pedia fôlego. Do Roberto Dinamite já não se pode dizer o mesmo, pois deu uma escapadinha para Espanha, mas se redimiu no breve retorno, ao fazer os cinco do Vasco em cima do Corinthians no Maracanã.Coisa recente do indubitável argumento do dinheiro, fora o caso do atacante pantaneiro, Alex Dias. Jogador do Vasco, o São Paulo estava de olho grande no atleta e com muito a oferecer. Como o Vasco não queria negociá-lo com o time Paulista, o Pantaneiro entrou com uma ação para se transferir para o São Paulo. Alegação: atraso de salário. A justiça deu ganho de causa ao clube do Rio, mas não havia mais jeito, não dava mais para fingir amor em São Januário. Assim o vice artilheiro do Brasileirão de 2004, fez a ponte aérea Rio-São Paulo.
Como Vascaíno que sou e tenho dito (peço aos Flamenguistas que não se avexem com o seu time), no último março, estive em São Paulo e a oportunidade me fez ir a famosa feira tecnológica – a Telexpo. Parecia animado o estande da LG. Havia um burburinho de garotas com a camisa do São Paulo Futebol Clube, que é o patrocinado pela multinacional. Diz o provérbio popular que a curiosidade matou o gato. Pensei “então que eu morra nos braços de uma dessas gatinhas São Paulinas”. Cheguei com visão, ouvido, tato e olfato bem aguçados. E quem estava lá a canetadas, autografando? Ele mesmo, o Pantaneiro! Peguei o cartão postal do estádio do Morumbi, dado por umas das meninas, que pude ouvir dizer que torcia mesmo, já há três meses, pelo Santos, pois era o time do atual namorado. Pensei “descarada” e fui até o Alex, disse a ele, como vai Pantaneiro? Ele pareceu surpreso por chamá-lo assim. Tomei-lhe o autógrafo no postal que recebi da São-Paulina a soldo e, lasquei-lhe na cara um bate pronto: “Papelão hein, Pantaneiro, aquilo que você fez? Deixando o Vasco daquele jeito? Pois constrangeu-se o craque. Ficou cabisbaixo. Consegui recuperá-lo a tempo, dizendo que esta é a vida de um profissional da bola, cuja carreira é curta. .
Domingo último, o Vasco recebeu o Tricolor Paulista em São Januário. Ficou no um a um. O gol dos paulistas foi dele. Ele não comemorou o gol. Chorou. Disse a impressa que tinha muita apreço ao Vasco e que as vaias que em um momento recebeu dos vascaínos, ele não consideraria, pois tem certeza de que quando esteve no clube deu o melhor de si. Se é assim Alexeeee Dias, Dias, Dias! Sucesso para você.
Na mesma ocasião da Telexpo, ocorreu a Bienal internacional do livro, no Anhembi, o Mineiro, o nanico cheio de garra, também atleta do São Paulo e convocado agora há pouco para a seleção, em substituição ao Edmilson contundido, estava lá. Foi difícil acreditar: um jogador de futebol na bienal de livros, e sem a motivação financeira dos patrocínios. Gaúchos, dizem que são dados à cultura, lêem muito. Veja a safra dos escritores dos pampas. Vai ver é isso, pois este Mineiro é Gaúcho.
Vai lá Mineiro, o mundo pode ser seu. Mas ao findar a carreira, se não tiver mais fôlego, não vá querer jogar no time do coração. Escreva um livro, contando os seus feitos futebolísticos, com um capítulo especial sobre o hexa. Haja coração!
Vai lá Mineiro, o mundo pode ser seu. Mas ao findar a carreira, se não tiver mais fôlego, não vá querer jogar no time do coração. Escreva um livro, contando os seus feitos futebolísticos, com um capítulo especial sobre o hexa. Haja coração! 

Anonymous disse
Como eu poderia imaginar isso?! eu, comentando um artigo sobre futebol!quando meu irmão(vascaíno)souber disso… Mas se fosse sobre futebol mesmo, eu não me atreveria. Mas no tocante à paixão do jogador pelo seu time, eu posso opinar. Quando a paixão era pelo time, havia fidelidade à camisa. Quando a paixão passou a ser pelo dinheiro envolvido, a fidelidade também mudou de foco. É “coerente”! por que que eu não tenho mais motivação para dizer que sou flamenguista – a não ser pra zoar com o meu irmão – ??? é porque eu não conheço mais o meu time! hj eu tô me orgulhando de Fulano por ser um excelente jogador e ele é do Mengão… amanhã fico sabendo que ele está no… Vascão!!! como pode!!! mas, se por um lado, eu não encontro mais uma coesão,uma identidade no meu time, não é por isso que eu vá pagar com a mesma moeda da infidelidade e torcer por outro! sendo assim, e sabendo que isso “faz parte”… ficamos como estamos. E os nossos profissionais do futebol também vão ficando… cada vez mais ricos!… fazer o quê?! “haja coração!!!”
Joel disse
Meu caro leitor Flamenguista, você disse tudo!!!
Kafé Roceiro disse
Sabe que eu estava comentando sobre isso, exatamente outro dia? Acabou-se o esporte por orgulho à camisa, ao time do coração. Hoje o coração vai pela grana, pelo vil metal. Hoje se fala em jogador pelos milhões que ele vale e não de reais e sim de euros.
Valeu!